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A Associação Multicultural Culture Vulture, sem fins lucrativos, destina-se ao incentivo das artes em geral. Estamos começando nossas atividades com MOSTRAS VIRTUAIS de artistas independentes. A I Mostra Virtual do website foi

NOITES E MADRUGADAS URBANAS

Essa mostra contou com os trabalhos de 34 artistas independentes, nas áreas de LITERATURA, FOTOGRAFIA, AUDIOVISUAL e PINTURA/DESENHO, e ficou em cartaz em nosso website de 2 de maio a 30 de julho de 2006. A extensão da mostra ficará em cartaz em nosso Blog de 1 de agosto a 31 de outubro de 2006.

Visite nossa II Mostra Virtual, com o tema

AMOR E DESEJO

em nosso website, entre 1 de agosto e 31 de outubro de 2006.

Inscreva um trabalho seu para a III Mostra Virtual, no tema

EU E O MAR

em nosso website, até 30 de setembro de 2006.

Todas as informações estão disponíveis em www.culturevulture.org.br

Entre para nossa comunidade no Orkut em
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1976468

Abraços a todos
Aurea Terranova de Alexandria
info@culturevulture.org.br

A Noite se fez para Clara

Dor de cabeça. Sozinha Clara resolveu andar pra ver se se esquecia de ser, ao menos um pouco. No bar pediu uma bebida qualquer, era mesmo pra descansar os olhos. Bem nutrida, fingia ser um cadafalso sua vida, mas nada poderia ser comparado ao desjejum, perdida nas horas, sem encontrar resposta a vozes que emitia por pura vingança, vozes humanas ela poderia ouvir sim. Mentir que não havia nada pra se resolver com ela. Mentir que as dores de cabeça não provinham da sua mente inquieta. Ler livros da literatura clássica. Balzac poderia lhe dar um alívio, não se sentia mais tão amarela no canto da mesa. Era pura peça de arte. Criava personagens que se misturaram na lembrança e criaram Clara antes dela pensar em se criar. Vinha primeiro os arroubos que nunca encontrou e parou de sonhar. Ou parou de pensar em personagens que sonhavam se consolar em Clara. Agora Claudia, depois árvore tímidas e rancorosas. Imensas, mas sem encontrar o céu. Agora Iara, perdida em contos de areia, com o vento da praça a lhe ruminar.

Sentou no bar e pediu uma bebida para não parecer procurando alguém, para não correr o risco de ser abordada, e tratada como frágil, de ser tratada como uma princesa esquecida e depois abandonada. Respirava, mas podia ser pedra e as pessoas passavam.

Naquela manhã não acordou e o quarto anoiteceu. O frio emanava das paredes, das luzes apagadas como um insulto azul-pertinente. Com olhos abertos e sem vida para existir ela hesitou em sair da cama. Mas um medo a alcançou. Sentia no seu silêncio voluntário a agressão desse próprio silêncio, um medo de que lhe comprimisse a cabeça, o corpo todo, que implodisse, seca e sem alarde. Morta sozinha num quarto escuro isolado numa casa vazia.

E se livrando do sentir se obrigaria a caminhar até o bar onde pediria uma bebida. E eles passaram: pessoas são pessoas, infelizmente. A vida lhe parecia tal que não mais existiam crianças e nem cachorros perambulando vadios nas ruas. Apenas Clara que não lembrava ter sido criança e os cachorros presos que acharam nela uma diversão.

Podia acreditar fielmente ser invisível. As pessoas são pessoas e passam, tropeçando em pernas de mesa, engarrafando-se nas portas dos banheiros, e conquistando com o bafo esquizofrênico qualquer um que queira ser conquistado, não se pode perder a noite, a noite é da conquista.

Entre vencedores Clara não se encontrou. Eles não a viam. No bar não havia solitários. E ela poderia ser bem notada, mas não o era.

E sentiu um alívio. Não queria mesmo ser vista.

Notou os passos dele, parecia abrir uma trilha, se lançando ao desconhecido, não por coragem, mas por desconhecimento da fraqueza. Clara se sentiu pequena e vulgar em sua presença. Percebia seu rosto limpo, e sua maneira que parecia não ensaiar modos ou antiqualquer coisa para não ser visto. Seu olhar era perdido como de um cego. Entrava naquele bar barulhento e cheio de pessoas que se entorpecem para se sentirem vivas e atraentes como se somasse nele todos os desejos.

Enjoou-se em complacência, em autopiedade. Quem ousaria sentar em outra mesa em sua frente encarnando o silêncio como só ela o faria? Não foi percebido por ninguém, mas sua presença foi violenta a Clara.

Naquela noite ela ouviria sua voz e não iria falar consigo mesma. Naquele instante sentiu o prazer de querer falar com alguém, apesar dos riscos, afinal temia encontrar ali, naquele alguém sozinho que transparecia ser tão verdadeiro, e verdadeiro no sentido de real, de alguém que realmente existe, e não um homem-produto, embalado em força e em promessa de lhe transmitir segurança.

A mãe e o pai. A segurança. A angústia da solidão.

Sua voz interior iria ser som. Ela teria que lhe falar. Ainda que correndo o risco de encontrar nele réplicas fragmentadas de falsa perfeição, de sentimentos mofados de tanto esperar encontrar o perfeito, que depois em amarga desistência pensa em modelar e lapidar o defeituoso.

- Antes do sol nascer eu terei te conhecido; ele disse antes que ela pensasse em pontos e encruzilhadas;

- Eu não procuro mais florestas virgens nem grandes mares povoados para me encontrar, mas me esqueci em meu quarto escuro com livros empilhados que me perturbam em noites quentes causando vertigens e alucinações quando não há ninguém para chamar, não há vistos de passagem e num descontrole corro na rua para pedir um cigarro a alguém, mesmo que eu não fume, assim saberei se existo ou me imagino existindo, respondeu Clara em tom de monólogo;

- Para inspiração de ser você em completude terá que se despir das armas de proteção, essa bomba-relógio que mata sua ingenuidade, tornando-a incapaz de ver você mesma no homem da esquina, aquele mendigo, a quem você pediu cigarro;

- Não sei se o resumo de minha vida foi eu quem fez ou se deixei que ele acontecesse. Conheço de cor os caminhos do trabalho, do cinema, da biblioteca, as subidas, as laterais do muro grafitadas;

- Se incomoda com o cisco no vidro do carro porque sua visão se concentra naquele cisco, e tudo envolta se desfoca;

- Eu tenho medo de já ter dito tudo e sentido todos os sentimentos disponíveis. Tenho medo porque tudo parece congelado, não há mais novidade, e não me sinto feliz nunca, de uma maneira esfuziante e natural, e tenho medo de você por me causar sensações que precedem o óbvio.

Uma chuva de repente, fez com que as pessoas acordassem de um estado anestésico no bar. A maioria das pessoas que conversavam estavam sentadas em mesas do lado de fora, e com a chuva perderam a certeza de seus personagens. Quebrou-se o encanto produzido pelas análises noturnas.

Quando Clara se virou novamente para ele... Sentia uma vontade tão grande em vê-lo na chuva. Como se comportaria, correria? Mas só viu aqueles olhos escuros em pensamento, como se estivessem ainda ali, orando por ela. Ele não estava mais lá.

Ele fugiu? Ou era eco de sua imaginação solitária? A chuva continuava, seus olhos eram o único sentido acionado. Via o bar vazio do lado de fora e as mesas e as cadeiras descansando enfim, a chuva purificando, algumas pessoas despreocupadas na janela...

Onde ele poderia estar?

Alguém a puxou pelo braço e falava rindo algumas coisas que ela achou melhor não tentar entender. Levava-a para dentro daquele bar, e as pessoas falavam alto lá dentro.

Clara o procurou entre eles: impossível. Não sabia se aquele que a levava para dentro era ele. Não se lembrava como era seu rosto, ou sua altura. Nem seu tom de voz. Não saberia montar sua imagem na memória e certamente não o reconheceria entre aquelas pessoas que falavam tão alto.

Um zunido forte perturbava sua cabeça, era mais alto que as vozes. Mais do que perguntas, tinha que dizer a ele quem era, tinha que falar.

§ § §

Os livros de literatura clássica empilhados pelo chão do quarto latejavam, ansiavam dolorosamente pelo contato das mãos de Clara, pelo peito de Clara, que os apertava, mastigando e engolindo cada história, sujeitando seu batimento cardíaco ao daquelas ficções, pulsando e cobiçando sua vida.

Clara entrava em seu quarto, saía de sua casa, às vezes esquecia de fechar as portas, de abrir a janela, às vezes esquecia que andava pela casa o dia todo, pelo quarto, pela sala.

Não sabia o rumo que daria a sua história. Não sabia se era ela que poderia escolher.

Decidiu que iria pausar sua vida na decisão de encontrar aquele que poderia ser apenas um anjo e que não mais poderia ser visto.

Na rua os cachorros presos não latiam mais para ela. As ruas pareciam mais compridas, retas, como se não levassem a lugar nenhum. Andava por horas nas ruas retas sem se cansar.

De não muito longe reconheceu sua casa e a janela de seu quarto, como um milagre ruim em sua frente. Vontade de chorar. Havia outra rua. Andou muito tempo envenenada pela expectativa. A rua acabou em sua casa novamente. Tentava a todo custo reconhecer o caminho de volta aquele bar, mas todas as ruas terminavam em sua própria casa, em seu próprio rosto choroso e desesperado. Por mais que buscasse caminhar em todas as ruas possíveis que tinham como ponto de partida a sua casa as ruas terminavam como haviam começado, por mais que caminhasse, as horas não passavam.

A noite estava estacionada esperando uma decisão.

Sua consciência espantou-se em sinceridade, transformando toda a angústia em lucidez, tornando toda a dor um motivo de reflexão.

A noite se deteve para Clara que não encontrava mais o caminho do bar. Se fez rua, asfalto e amplidão. Baixou as estrelas para o contato das mãos. Exagerou o brilho da lua para cegar aquele olhar. Silenciou os humanos. A noite se fez para Clara.

Que percebeu a existência da escolha, de seu corpo todo pulsar uníssono ao desconhecido.

Optou pela entrega ao abismo.

Ana Paula Sant´Ana

Nome do autor: Ana Paula Sant’Ana
Cidade, Estado: Cuiabá, MT
Website ou Blog: www.rudepoema.blogger.com.br
Email para contato:
empoema@gmail.com


Primeiros amores, noites aflitas e rádio

(Escrevi quando tinha 16 anos e o atualizei aos 30)

"Droga! Droga!" Como todo sábado ao cair da tarde, ela estava em frente ao espelho lutando desesperadamente com seus cabelhos castanhos, encaracolados e eternamente avessos às regras que ela tentava lhes impor com um grande pente de madeira. Nesses momentos de intimidade, ela costumava fazer um longo exame de seu rosto. Os olhos castanhos, grandes, eram companhia perfeita para as sobrancelhas grossas e bem feitas. O nariz não era muito delicado, mas somado à boca carnuda e rosada, combinava com o conjunto. Sim, ela estava satisfeita com a aparência de seu rosto e gostava de si, se achava até mesmo bonita, apesar de um pouco gordinha. Mas os cabelos ... sempre se recusando a obedecer aos movimentos repetitivos do pente. Vencida, ela dava-se por contente e ia para o quarto.

Esse aposento da casa não era muito grande, mas ela o dividia com mais três irmãs. Num sábado à noitinha, era raro que alguém ali ficasse. E era ali, longe dos (muitos) ruídos da casa, que ela iniciava seu programa de sábado à noite. Estava apaixonada. Ele tinha que ligar.
Olha de relance para o despertador sobre a cabeceira: vinte para as sete da noite. Muito cedo ainda!

Ela liga o rádio bem baixinho, desliga a luz e fica deitada, no escuro, aguardando. O rádio antigo, preto, devia ser dos anos cinqüenta. Funcionava com válvulas que esquentavam bastante e tinha uns botões redondos ranhurados, cor de creme . Ele era seu habitual companheiro de espera, a qual nunca tinha hora certa para acabar.

“Menino, onde você estava até esta hora? Vá já tomar banho!” Os gritos de sua mãe sinalizavam a chegada de seu irmão mais novo. Menino levado, desobediente. Tinha ainda uns seis anos, mas ninguém podia com ele. Ela, no entanto, estava tão voltada para sua própria ansiedade, que mal se dava conta de como os acontecimentos se desenvolviam ao seu redor. Ela sofria o sofrimento mais doído, aquele de quem experimenta as tristezas da vida pela primeira vez, quando a alma, ainda não calejada, recebe os golpes diretamente, sem proteção nenhuma. E que por isso doem muito mais.

Por que esperar? Por que não ir até a sala e usar um dos mais extraordinários inventos humanos, o de Graham Bell? Quando se é adolescente, as convenções sociais têm um peso muito grande. Nos anos 70, apesar de toda a liberação pregada, mocinhas não deviam tomar iniciativas no campo amoroso. O exercício da liberdade ainda era reservado aos homens: ele deve ligar. Enquanto isso, aprisionando a própria vontade, ela sofre em seu quarto, e aguarda. E pensa nele. O que estaria fazendo agora? Estaria conversando com alguém, um amigo? Que amigo que nada! Certamente estaria conversando com uma moça. Provavelmente já estaria pronto para sair para algum barzinho na cidade, com programa já acertado...” E eu aqui, idiota, esperando! “

Ela acende a luz e procura novamente na cabeceira o relógio. Oito e meia. “Nem cedo, nem tão tarde”, pensa ela. Afinal era sábado. Oito e meia num sábado é cedo. Cedíssimo. “Será que ele vai me ligar?” Ela apaga a luz, deita-se e volta-se para a parede. Um turbilhão de pensamentos toma conta de sua cabeça. Talvez ele já tenha até saído. Talvez ele nem se lembre do sábado anterior, quando ficaram horas batendo papo, se abraçando, se beijando, dentro do fusquinha azul dele. Ela era apenas mais uma, mais uma sem importância. Como os homens podem ser tão frios, desalmados? Ela chora baixinho. E aguarda.

Nove e quinze. De um solavanco, sua mãe abre a porta do quarto e acende a luz. “Menina, o que é que você está fazendo aí sozinha no escuro??” Sua voz estridente soa como uma sirene .

Irritada, até mesmo indignada por ver seu momento íntimo de fraqueza e desespero invadido daquela forma, ela grita que só está ouvindo um pouco de rádio, que naquela casa cheia de gente não se pode ter sequer um momento de paz, que um dia ela vai ganhar muito dinheiro e vai embora dali, pra nunca mais. A mãe nada responde. Apaga a luz e fecha a porta. Em total silêncio.

Ela cai num pranto convulsivo. Fica ali, no escuro, chorando, não sabe por quanto tempo. Ela não queria ter maltratado a mãe. Só que ... já eram nove e meia, ele ainda não tinha ligado, não ia mais ligar. Nove e meia, num sábado, já é muito tarde, tardíssimo. “Por que? Por que?” Cansada. Olhos inchados, ela adormece.

De repente, acorda sobressaltada, acende a luz e olha mais uma vez para o relógio, com seu tic tac indiferente: dez e quarenta. Acabou, passou. THE END.

Resignada, ela se levanta e sai do quarto em direção ao banheiro. Na cozinha ,sua mãe, já de camisola e ainda chateada, toma uma xícara de chá. “Um rapaz telefonou. Não quis que eu acordasse você. Disse que liga amanhã.” Ela abraça a mãe com força e pede desculpas. Corre para o banheiro e sorri para o espelho.

Aurea Terranova de Alexandria

Nome do autor: Aurea Terranova Lopes de Alexandria Weber
Pseudônimo: Aurea Terranova de Alexandria
Cidade, Estado: São Paulo, SP
Website ou Blog: http://spaces.msn.com/aureaterranova/
Email para contato:
aurea.terranova@gmail.com

Amnésia

ou amnésia, ou ressaca:

- a escolha é pessoal e intransferível

esqueça em cima da mesa do bar

as revelações de alguns flashs

as etiquetas das nossas costuras

a incompetência do que se chama amor



dê de gorjeta ao garçon

o soluço das muitas neuras

as respostas que nos consomem

as mordaças que nos diluem

a esperança que exorciza

o personagem que resiste



ou



brinde em derradeiro gole

tudo aquilo que inventamos

em dose letal

o nosso próprio veneno

que lateja goela abaixo

engasgando nossos silêncios

Beth F. Almeida

Nome do autor: Elisabeth Pinto Ferreira de Almeida
Pseudônimo: Beth Almeida
Cidade, Estado: Belo Horizonte, MG
Website ou Blog: www.bethalmeida.com.br
Email para contato: bethfalmeida@uol.com.br

A Festa dos Faraós

Como fazia desde que perdera o emprego de redator publicitário, Ramiro chegou ao apartamento em Higienópolis e repetiu o ritual.
Abriu o bar e pegou um copo de uísque. Com a outra mão, uma latinha de castanhas-do-pará. Depois colocou uma pedrinha de gelo no copo baixo, ligou o som e foi até o quarto. Despiu-se ao som de Buena Vista Social Club.
Entrou, com o copo de uísque no box, cantando uma faixa de Compay Segundo .
- Chicharrones! Chicharrones!
Beber uísque debaixo do jorro de água quente era a maneira que Ramiro encontrava para relaxar.
Ao sair do longo banho deu uma ouvida nos recados na secretária.
- Ramiro, Soraia falando. O dinheiro do freela só vai sair daqui a três semanas. Sorry! Te vejo na Festa dos Faraós…
- Fala, Ramiro! Aqui é o Ricardo. A festa dos Faraós é hoje à noite, já tá com a fantasia?
- Ramiro? Passa aqui antes de ir à festa. A gente vai fazer um aquecimento. O Fê providenciou três garrafas de Famous Grouse. Traz você e o gelo, nenê.
Ramiro saiu do banho enrolado numa toalha branca onde lia-se bordado " R.C." - Ramiro Castro.
Pegou outra dose do uísque, jogou duas castanhas na boca e foi até o quarto de vestir. Escolheu uma calça Diesel, uma camiseta preta e jogou um blazer por cima. Nos pés, o tênis vintage favorito.
Sorveu o copo, dessa vez sem gelo, de um gole só e saiu rumo à casa de Zeco.
Zeco Hernandez era publicitário de criação como Ramiro, só que vinte e tantos anos mais velho. Descolara o primeiro emprego dele, quando era diretor de criação da prestigiada Connection-8. Possuía uma dúzia de Leões no Festival de Cannes, dezenas de viagens internacionais no curriculum e fôra elogiado pela mídia internacional. Só que agora estava com mais de 60, um mal de Parkinson recente o atormentava, tinha uma dívida de muitos mil dólares entre impostos, aluguel , pensões alimentícias e o padeiro.
Zeco sabia como viver, não sabia como gastar. Ou melhor, sabia gastar, mas como um rei africano.
Ao chegar na frente do apartamento de Zeco, em Santa Cecília, Ramiro teve de se esquivar de dois homens-cobertor na calçada. Um deles quase encostou em seu paletó Zara. No ról do velho prédio, o porteiro ouvia ruidosamente a Nativa FM. O cheiro de cebola frita e alho no corredor embatucou seu estômago. Tocou a campainha várias vezes. Nada.
Resolveu empurrar a porta. Lá estava o velho Zeco, como de praxe. Ressonava em frente a uma tevê ligada, a indefectível garrafa de vodca pela metade a seu lado e moscas voando sobre um prato com restos de pizza de calabresa.
Ao sentir a presença de Ramiro, levantou-se de supetão. Antes mesmo de abrir os olhos , deu dois grande goles no gargalo e, sem claquete, começou a desfiar seu palavrório infindável .
- Olha, comi muita mulher naquele 1979. Só rapariga de 500 talheres…
O velho deu outro gole na vodca quente e engoliu o resto de pizza fria e gordurenta.
- Esse mercadinho feito de vampiros, parasitas e filhos-da-puta me tratava como o príncipe da Dinamarca. Eu dava muita grana pros clientes dels com as minhas idéias. E é isso o que interessa. O resto é merda.
- Por que você não volta pruma agência? - indagou Ramiro, abrindo a geladeira na captura de uma latinha de cerveja.
Zeco rugiu:
- Agência? Eu? Vai se foder! No meu tempo de redator era como uma aula do Segundo Grau. Todo mundo zoando todo mundo, jogando giz, uma puta diversão. Hoje é um monte de caras tristes, narigudos, de frente pruma tela de computador...
A cerveja estava choca. Mesmo assim, Ramiro encarou.
Zeco continuou.
- Devo pra cacete, não nego e não pagarei quando puder. Mas, porra, vivi!
Foi cai-não-cai até uma mesa de apoio no corredor e trouxe a estátua do Leão de Cannes dourado numa mão e a garrafa de vodca Balalaika prateada na outra.
- Me atraquei com uma francesa em Cannes na varanda do primeiro andar do hotel Martinez. O publicitários que estavam no bar do térreo, viram e bateram palmas, Já tracei mulher pra cacete! Uma fila de putas, Ramiro. E daquelas acostumadas a pedir caviar a 11 mil metros de altura…
Zeco disse a última frase, derramou o quarto de garrafa de vodca no meio das pernas e caiu no sofá, dormindo.
Não havia mais dúvida para Ramiro: fizera muito bem em não ter ido à Festa dos Faraós.

Carlos Castello

Nome do autor: Carlos Castelo
Cidade, Estado: São Paulo, SP
Website ou Blog: http://www.castelorama.com.br
Email para contato:
carlos.castelo@snbb.com.br