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A Associação Multicultural Culture Vulture, sem fins lucrativos, destina-se ao
incentivo das artes em geral. Estamos começando nossas atividades com MOSTRAS VIRTUAIS de artistas independentes. A I Mostra Virtual do website foi NOITES E MADRUGADAS URBANAS Essa mostra contou com os trabalhos de 34 artistas independentes, nas áreas de LITERATURA, FOTOGRAFIA, AUDIOVISUAL e PINTURA/DESENHO, e ficou em cartaz em nosso website de 2 de maio a 30 de julho de 2006. A extensão da mostra ficará em cartaz em nosso Blog de 1 de agosto a 31 de outubro de 2006. Visite nossa II Mostra Virtual, com o tema AMOR E DESEJO em nosso website, entre 1 de agosto e 31 de outubro de 2006. Inscreva um trabalho seu para a III Mostra Virtual, no tema EU E O MAR em nosso website, até 30 de setembro de 2006. Todas as informações estão disponíveis em www.culturevulture.org.br Entre para nossa comunidade no Orkut em http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1976468 Abraços a todos Aurea Terranova de Alexandria info@culturevulture.org.br A Noite se fez para ClaraDor de cabeça. Sozinha Clara resolveu andar pra ver se se esquecia de ser, ao menos um pouco. No bar pediu uma bebida qualquer, era mesmo pra descansar os olhos. Bem nutrida, fingia ser um cadafalso sua vida, mas nada poderia ser comparado ao desjejum, perdida nas horas, sem encontrar resposta a vozes que emitia por pura vingança, vozes humanas ela poderia ouvir sim. Mentir que não havia nada pra se resolver com ela. Mentir que as dores de cabeça não provinham da sua mente inquieta. Ler livros da literatura clássica. Balzac poderia lhe dar um alívio, não se sentia mais tão amarela no canto da mesa. Era pura peça de arte. Criava personagens que se misturaram na lembrança e criaram Clara antes dela pensar em se criar. Vinha primeiro os arroubos que nunca encontrou e parou de sonhar. Ou parou de pensar em personagens que sonhavam se consolar em Clara. Agora Claudia, depois árvore tímidas e rancorosas. Imensas, mas sem encontrar o céu. Agora Iara, perdida em contos de areia, com o vento da praça a lhe ruminar. Sentou no bar e pediu uma bebida para não parecer procurando alguém, para não correr o risco de ser abordada, e tratada como frágil, de ser tratada como uma princesa esquecida e depois abandonada. Respirava, mas podia ser pedra e as pessoas passavam. Naquela manhã não acordou e o quarto anoiteceu. O frio emanava das paredes, das luzes apagadas como um insulto azul-pertinente. Com olhos abertos e sem vida para existir ela hesitou em sair da cama. Mas um medo a alcançou. Sentia no seu silêncio voluntário a agressão desse próprio silêncio, um medo de que lhe comprimisse a cabeça, o corpo todo, que implodisse, seca e sem alarde. Morta sozinha num quarto escuro isolado numa casa vazia. E se livrando do sentir se obrigaria a caminhar até o bar onde pediria uma bebida. E eles passaram: pessoas são pessoas, infelizmente. A vida lhe parecia tal que não mais existiam crianças e nem cachorros perambulando vadios nas ruas. Apenas Clara que não lembrava ter sido criança e os cachorros presos que acharam nela uma diversão. Podia acreditar fielmente ser invisível. As pessoas são pessoas e passam, tropeçando em pernas de mesa, engarrafando-se nas portas dos banheiros, e conquistando com o bafo esquizofrênico qualquer um que queira ser conquistado, não se pode perder a noite, a noite é da conquista. Entre vencedores Clara não se encontrou. Eles não a viam. No bar não havia solitários. E ela poderia ser bem notada, mas não o era. E sentiu um alívio. Não queria mesmo ser vista. Notou os passos dele, parecia abrir uma trilha, se lançando ao desconhecido, não por coragem, mas por desconhecimento da fraqueza. Clara se sentiu pequena e vulgar em sua presença. Percebia seu rosto limpo, e sua maneira que parecia não ensaiar modos ou antiqualquer coisa para não ser visto. Seu olhar era perdido como de um cego. Entrava naquele bar barulhento e cheio de pessoas que se entorpecem para se sentirem vivas e atraentes como se somasse nele todos os desejos. Enjoou-se em complacência, em autopiedade. Quem ousaria sentar em outra mesa em sua frente encarnando o silêncio como só ela o faria? Não foi percebido por ninguém, mas sua presença foi violenta a Clara. Naquela noite ela ouviria sua voz e não iria falar consigo mesma. Naquele instante sentiu o prazer de querer falar com alguém, apesar dos riscos, afinal temia encontrar ali, naquele alguém sozinho que transparecia ser tão verdadeiro, e verdadeiro no sentido de real, de alguém que realmente existe, e não um homem-produto, embalado em força e em promessa de lhe transmitir segurança. A mãe e o pai. A segurança. A angústia da solidão. Sua voz interior iria ser som. Ela teria que lhe falar. Ainda que correndo o risco de encontrar nele réplicas fragmentadas de falsa perfeição, de sentimentos mofados de tanto esperar encontrar o perfeito, que depois em amarga desistência pensa em modelar e lapidar o defeituoso.
- Antes do sol nascer eu terei te conhecido; ele disse antes que ela pensasse em pontos e encruzilhadas; - Eu não procuro mais florestas virgens nem grandes mares povoados para me encontrar, mas me esqueci em meu quarto escuro com livros empilhados que me perturbam em noites quentes causando vertigens e alucinações quando não há ninguém para chamar, não há vistos de passagem e num descontrole corro na rua para pedir um cigarro a alguém, mesmo que eu não fume, assim saberei se existo ou me imagino existindo, respondeu Clara em tom de monólogo; - Para inspiração de ser você em completude terá que se despir das armas de proteção, essa bomba-relógio que mata sua ingenuidade, tornando-a incapaz de ver você mesma no homem da esquina, aquele mendigo, a quem você pediu cigarro; - Não sei se o resumo de minha vida foi eu quem fez ou se deixei que ele acontecesse. Conheço de cor os caminhos do trabalho, do cinema, da biblioteca, as subidas, as laterais do muro grafitadas; - Se incomoda com o cisco no vidro do carro porque sua visão se concentra naquele cisco, e tudo envolta se desfoca; - Eu tenho medo de já ter dito tudo e sentido todos os sentimentos disponíveis. Tenho medo porque tudo parece congelado, não há mais novidade, e não me sinto feliz nunca, de uma maneira esfuziante e natural, e tenho medo de você por me causar sensações que precedem o óbvio.
Uma chuva de repente, fez com que as pessoas acordassem de um estado anestésico no bar. A maioria das pessoas que conversavam estavam sentadas em mesas do lado de fora, e com a chuva perderam a certeza de seus personagens. Quebrou-se o encanto produzido pelas análises noturnas. Quando Clara se virou novamente para ele... Sentia uma vontade tão grande em vê-lo na chuva. Como se comportaria, correria? Mas só viu aqueles olhos escuros em pensamento, como se estivessem ainda ali, orando por ela. Ele não estava mais lá. Ele fugiu? Ou era eco de sua imaginação solitária? A chuva continuava, seus olhos eram o único sentido acionado. Via o bar vazio do lado de fora e as mesas e as cadeiras descansando enfim, a chuva purificando, algumas pessoas despreocupadas na janela... Onde ele poderia estar? Alguém a puxou pelo braço e falava rindo algumas coisas que ela achou melhor não tentar entender. Levava-a para dentro daquele bar, e as pessoas falavam alto lá dentro. Clara o procurou entre eles: impossível. Não sabia se aquele que a levava para dentro era ele. Não se lembrava como era seu rosto, ou sua altura. Nem seu tom de voz. Não saberia montar sua imagem na memória e certamente não o reconheceria entre aquelas pessoas que falavam tão alto. Um zunido forte perturbava sua cabeça, era mais alto que as vozes. Mais do que perguntas, tinha que dizer a ele quem era, tinha que falar. § § § Os livros de literatura clássica empilhados pelo chão do quarto latejavam, ansiavam dolorosamente pelo contato das mãos de Clara, pelo peito de Clara, que os apertava, mastigando e engolindo cada história, sujeitando seu batimento cardíaco ao daquelas ficções, pulsando e cobiçando sua vida. Clara entrava em seu quarto, saía de sua casa, às vezes esquecia de fechar as portas, de abrir a janela, às vezes esquecia que andava pela casa o dia todo, pelo quarto, pela sala. Não sabia o rumo que daria a sua história. Não sabia se era ela que poderia escolher. Decidiu que iria pausar sua vida na decisão de encontrar aquele que poderia ser apenas um anjo e que não mais poderia ser visto. Na rua os cachorros presos não latiam mais para ela. As ruas pareciam mais compridas, retas, como se não levassem a lugar nenhum. Andava por horas nas ruas retas sem se cansar. De não muito longe reconheceu sua casa e a janela de seu quarto, como um milagre ruim em sua frente. Vontade de chorar. Havia outra rua. Andou muito tempo envenenada pela expectativa. A rua acabou em sua casa novamente. Tentava a todo custo reconhecer o caminho de volta aquele bar, mas todas as ruas terminavam em sua própria casa, em seu próprio rosto choroso e desesperado. Por mais que buscasse caminhar em todas as ruas possíveis que tinham como ponto de partida a sua casa as ruas terminavam como haviam começado, por mais que caminhasse, as horas não passavam. A noite estava estacionada esperando uma decisão. Sua consciência espantou-se em sinceridade, transformando toda a angústia em lucidez, tornando toda a dor um motivo de reflexão. A noite se deteve para Clara que não encontrava mais o caminho do bar. Se fez rua, asfalto e amplidão. Baixou as estrelas para o contato das mãos. Exagerou o brilho da lua para cegar aquele olhar. Silenciou os humanos. A noite se fez para Clara. Que percebeu a existência da escolha, de seu corpo todo pulsar uníssono ao desconhecido. Optou pela entrega ao abismo. Ana Paula Sant´Ana Nome do autor: Ana Paula Sant’Ana Primeiros amores, noites aflitas e rádio(Escrevi quando tinha 16 anos e o atualizei aos 30)
"Droga! Droga!" Como todo sábado ao cair da tarde,
ela estava em frente ao espelho lutando desesperadamente com seus cabelhos
castanhos, encaracolados e eternamente avessos às regras que ela tentava lhes
impor com um grande pente de madeira. Nesses momentos de intimidade, ela
costumava fazer um longo exame de seu rosto. Os olhos castanhos, grandes, eram
companhia perfeita para as sobrancelhas grossas e bem feitas. O nariz não era
muito delicado, mas somado à boca carnuda e rosada, combinava com o conjunto.
Sim, ela estava satisfeita com a aparência de seu rosto e gostava de si, se
achava até mesmo bonita, apesar de um pouco gordinha. Mas os cabelos ... sempre
se recusando a obedecer aos movimentos repetitivos do pente. Vencida, ela
dava-se por contente e ia para o quarto. Aurea Terranova de Alexandria Nome do autor: Aurea Terranova Lopes de Alexandria
Weber Amnésiaou amnésia, ou
ressaca: - a escolha é pessoal e intransferível esqueça em cima da mesa do bar as revelações de alguns flashs as etiquetas das nossas costuras a incompetência do que se chama amor dê de gorjeta ao garçon o soluço das muitas neuras as respostas que nos consomem as mordaças que nos diluem a esperança que exorciza o personagem que resiste ou brinde em derradeiro gole tudo aquilo que inventamos em dose letal o nosso próprio veneno que lateja goela abaixo engasgando nossos silêncios Beth F. Almeida Nome do autor: Elisabeth Pinto Ferreira de
Almeida Pseudônimo: Beth Almeida Cidade, Estado: Belo Horizonte, MG Website ou Blog: www.bethalmeida.com.br Email para contato: bethfalmeida@uol.com.br A Festa dos FaraósComo fazia desde que perdera o emprego de
redator publicitário, Ramiro chegou ao apartamento em Higienópolis e repetiu o
ritual. Carlos Castello Nome do autor: Carlos Castelo Dona TristezaSe corro pelo mundo é para achar uma
parte do meu ser que me diga aonde ir.
Descansa um pouquinho Tristeza, sente-se aqui comigo. Não entendo para que tanta andança. - Whisky? Nao, a tristeza não fala. - Água por favor. Sentes sede? Tanta correria, por que não te sentas? Aqui, ao meu lado. Prometo dar-te o carinho necessário. Vem eu não lhe farei mais triste do que tu já és. Me dê a sua mão aqui, toca-me o sexo quente. Sente? E os meus seios? Sente, chora. Mas por que choras? Por que sentes eles duros, eles querendo vida? Olha-me nos olhos! Tu vês? Eu, bela! Levanta, samba comigo, pega nos meus quadris, sente o meu movimento. Samba, Tristeza, samba! Dança em cima dessa sua branca poesia. O que queres que te ensine? Que escreva em sua folha em branco? Não, vem! Toma um gole, só um golinho tristeza! Você vai ficar menos tristinha, um pilequinho só dona Tristeza! Ai mas quem te fez assim? Tão arredia? Olha, olha a sua volta. Vê alguém triste como tu? Não! E por que não? Porque ninguém aqui tem medo de sofrer. Olha nos olhos a sua volta. De uma volta pelo mundo. Eu não entendo. Não compreendo por que tanta grandeza e profundidade se tu és tão mirradinha, dona Tristeza? Olha esses pés! Tão pequeninos, tens medo de cair não é? Deve ser. Tu não falas nada? Por que? Ai, mas que Tristeza chata! Vem cá, chega mais perto do meu corpo, sente o calor que meus sentidos exalam. Agora sentes? Não precisa ficar assim, trêmula. Que belas coxas! Humm, devias mostrar mais esse seu corpo. Pele macia, ai dona Tristeza! Senta aqui no colo, não, assim não, risos. Senta virada para mim. Agora olha-me nos olhos e sente a minha mão por entre as suas coxas, isso, gostas? Claro que sim Tristeza! Quem não gosta! Não tenhas medo! Mas por que choras? Goza? Ah sim! Goza, dona Tristeza, goza! Fernanda C. Luz Nome do autor: Fernanda C. Luz TestemunhaMadruga. Toda madrugada é assim. Bares e boemia. Calouros e veteranos entram no clima. Quente. Muito quente. Antes de deitar, alguém pratica o canto evocativo de Deus. Nas ruas, putaria e alegria. Ou seria tudo a mesma cousa? Rua dos Alecrins, coração do Cambuí, bairro dos jovens endinheirados, bonitos e modernos. Em frente à praça, ao lado da escola de educação infantil de R$1.000,00, num casarão velho por fora e luxuoso por dentro, contrastando com as edificações verticalmente chics plantadas no espaço urbano, lágrimas descem em ondas suaves umedecendo a pele ainda fresca da balzaquiana que espera o sono chegar. Madrugada. Toda madrugada é assim. Quando o dia amanhece ela se olha nos muitos espelhos espalhados pela casa, ensaia o melhor sorriso, ensinamento que aprendeu ainda muito jovem com uma sabia senhora nissei, orientadora das reuniões de Estudos da Prosperidade:"Sorria. Sorria sempre menina. Com a prática, seu sorriso parecerá espontâneo e você vai se sentir melhor sorrindo. O sorriso atrai prosperidade." A técnica funcionou. São muitos os elogios ao seu sorriso, à sua vivacidade, a felicidade que transborda daquela escultura divina vestida de mulher. Que motivo teria ela para ser infeliz, se a natureza lhe presenteou com tão bela roupagem natural? Não nasceu rica, mas conquistou o conforto material com seu trabalho honesto, um atlético marido vegetariano e os dois meninos lindos que saíram do mesmo óvulo pelo mesmo orifício em que entram, tudo isso sem romper membranas, parto liso, de cócoras, como toda mulher culta sonha e todo médico "cesarista de carteirinha assinada" tem pesadêlos. Deve ser uma amaldiçoada. Daquelas que carregam o demônio por dentro. Ele deve morder seu estômago, e ela chora da dor que sente e não pode ser medicada. Na faculdade de medicina não se ensina a diagnosticar demônios. Ou não. Seria "o infinito amor de Deus que flui para o seu interior"? Toda madrugada é assim. Ela pratica o Shinsokan, deita, e lá pelas altas horas, lágrimas descem em ondas suaves umedecendo a pele ainda fresca da balzaquiana. Eu sou a única testemunha. Gata Guu Nome do autor: Adilma
Nascimento MesmoDe quando em
quando Me encontrei Quase em um instante Me esqueci Enquanto isso Me desesperei Mesmo eu mesma nem senti Quando de ti recebi Taça de prata Um suave veneno BEBI Senti meu corpo estremecer Fechei os olhos Adormeci Lena Moonwhisper Nome do autor: Marcia Regina da Silva
Baliza Pseudônimo: Lena Moonwhisper Cidade, Estado: São paulo Website ou Blog: http://www.darkmoonwhisper.blogspot.com Email para contato: m.resil@gmail.com Parece que o poema andou bebendo Incrível como sobram
reticências nos vãos destes lençóis roucos Incrível como me
falta o ar Por isso Jackie parece nome de puta. Luana Vignon Nome do autor:
Luana de Carvalho Vignon Guimarães Las Vegas ou Uma prostituta no espelhoHoje me deu vontade de ir para o Las Vegas. É um bar imundo que fica
no centro velho de Araçatuba, é onde ficavam as minas e os drogados quando ainda
existia aquele puta cinema na esquina. Quando eu ia lá não sabia de muitas
coisas, não sabia, por exemplo, que o lugar combinava perfeitamente com uma
canção do Johnny Cash ou da Patti Smith, dependendo do dia. Não sabia que
transar com camisinha era tão ruim. Não sabia que sexo era uma coisa tão
complicada e que o amor não resolve merda nenhuma. Eu não sabia que após os 16 a
dor tinha outro nome. Luana Vignon Nome do autor:
Luana de Carvalho Vignon Guimarães SensatamenteTudo que
quero, Lúcio Almeida Nome do autor: Lucio Souza
Almeida Pseudônimo: Lucio Almeida Cidade, Estado: São Paulo -SP Website ou Blog: http://www.fotolog.com/mcaacm Email para contato: luciomca@hotmail.com Morte ao horário comercialDisse Schopenhauer que a capacidade que
alguém tem de tolerar ruídos é inversamente proporcional à sua capacidade
mental. Essa frase foi usada pelos críticos do rock, quando este ainda
engatinhava, e pelos do jazz, quando os roqueiros ainda não haviam nascido.
Uso-a literalmente, isto é, para tratar dos ruídos literais, não dos musicados,
sem intenção explícita de criticar axé, funk ou o que chamam hoje de rock
nacional, gêneros com os quais tenho uma relação ambígua: provocam-me repulsa em
condições normais e certo prazer, quando bêbado. Se Dali ou Godard ficam
interessantes depois de algumas doses, por quê Tati Quebra Barraco não ficaria?
Mas divago. Traduzindo: "Os que suportam muito barulho são muito estúpidos; os que não suportam nenhum, brilhantes, e os que toleram medianamente, nem burros nem inteligentes". Dessa forma, noites e madrugadas, mais silenciosas, estão para o pensamento e a reflexão como o resto das horas, com seus diálogos e zombidos, para a impulsividade. Na visão minha e na do filósofo, se ruído e reflexão fossem adjetivos, seriam antônimos. A minha não importa muito, pois, como o leitor esclarecido já percebeu, fundo esta "crônica de protesto" no pensamento de uma autoridade, uma velha técnica de manipulação. Chama-me de sofista? Ora, quem nunca tentou empurrar um silogismo retórico numa conversa de bar que atire o primeiro bolinho de bacalhau. Ok, corrijo: onde se lê "silogismo retórico" leia-se "empulhação" e, ok, pode jogar a garrafa. Vazia, claro, pois arremessar uma garrafa sem antes beber o que tem dentro seria um atentado. Proteste com responsabilidade. Novamente, divago. Com base nas conclusões do filósofo, lanço aqui o movimento "PENSE DE NOITE E FAÇA DE DIA". O objetivo é "fazer um mundo melhor", como não poderia deixar de ser, já que todo movimento organizado na história da humanidade (nazismo e pacifismo beatnik inclusos) se propuseram isso. Para Hitler, o mundo seria melhor sem judeus. Para os beats, bem... o que eles propunham mesmo? O primeiro e único mandamento desta mobilização é: "NÃO TOMARÁS DECISÕES ENTRE 7H E 22H". Eu escrevi "único"? Bom, esqueça. Tem outro, variante radical do primeiro: "NUNCA, SOB NENHUMA HIPÓTESE, DECIDIRÁS SOBRE SUA VIDA EM HORÁRIO COMERCIAL". Estas leis, se aplicadas, nos salvariam da selvageria, das guerras, da estupidez. Justifico-as com quatro argumentos quase irrefutáveis. O primeiro: na madrugada, o tráfego de idéias que passeiam pelo ar, assim como o das ondas de rádio, é menor. Isso diminui a interferência que captamos em nossas "antenas". Um exemplo: sabe quando, à noite, encontramos a solução para um problema sobre o qual havíamos pensado durante o dia? Essa idéia estava lá, na atmosfera, o tempo inteiro. Porém durante o dia são tantas e tão conflitantes que é difícil hierarquiza-las ou captá-las na freqüência correta. Não acredita? Eu também não, mas a metáfora é boa. Não acha? Passemos para a próxima, então. Segundo: assim como nos bancos e Pãos de Açúcar 24 horas, no INSS, e no MacDonalds, as filas nas madrugadas são menores. Refiro-me, neste caso, às filas para uma audiência com Deus, ou, até, com nossos "eu mesmos". Ficamos mais disponíveis a ouvi-los e a refletir sobre o que nos tem a dizer. A razão é simples, leitor. Como há menos gente acordada, o divino ser que nunca dorme está mais livre para ouvir nossa ladainha. O mesmo vale para ouvirmos o que diz nosso espelho, o que costumam chamar de "reflexão". Como estamos sós, não precisamos dividir a atenção que deveríamos dar a nós mesmos com ninguém. Algum chato pode dizer que, enquanto é noite no Ocidente é dia no Oriente e blá blá blá. Assim, podem afirmar os estraga-prazeres, há em nossas madrugadas bilhões de chineses acordados tentando contato em horário comercial com aquele que tudo vê (e, claro, tudo ouve). Mas não dê ouvidos aos chatos e estraga-prazeres, pois, como demonstramos, são chatos e estraga-prazeres. Penúltima justificativa: protegidos pelo sono do outro, que, dormindo, não nos ameaça ou pressiona, sentimo-nos mais livres para divagar, pensar, refletir, decidir nossas vidas. O medo do contato, sobre o qual Canetti fundou sua psicologia social das massas, fica suspenso. Quem já experimentou a liberdade, mesmo que ilusória, de estar diariamente acordado enquanto as massas dormem sabe do que estou falando. Pensamos sobre a realidade e sobre as pessoas sabendo que, naquele momento, não nos podem atrapalhar com seus ruídos, com sua histeria, com suas opiniões dispensáveis. Sem ter quem nos reprove e livres das patrulhas antitabagistas (aliás, fundadas modernamente por Hitler), fumamos sem pressa e podemos ouvir a brasa do cigarro crestar o papel, fenômeno impossível de ser percebido à luz do dia. Um som fantástico. Lemos, em silêncio e circundado por ele, textos que nunca leríamos com o mesmo prazer e compreensão. Quem, como eu, já tentou ler Kant a bordo do Largo da Batata-Perus sabe disso. Deixei para o final o relato de uma experiência minha por considerá-la, na verdade, o leitmotiv dessa nova ordem que proponho. As justificativas dadas até agora deram um verniz teórico à minha proposta, um ar mais racional. Com isso, quis mascarar o charlatanismo próprio dos que, como eu, fundam doutrinas baseadas exclusivamente em suas experiências ou imaginação e inventam fórmulas mágicas para justificá-las. Como todos sabemos, quanto mais absurda for a tese mais as pessoas terão de crer nela. Nunca cremos em algo perfeitamente possível de ser demonstrado, pois, nesse caso, não há necessidade de crença, certo? O fato é que todas as grandes burrices que fiz, fi-las em horário comercial. Cito uma delas, pois, como escreve são João em seu evangelho, todos os livros do mundo não dariam conta de enumerá-las. Talvez ele tenha exagerado ao se referir às incontáveis maravilhas de Cristo. Quanto à minha lista de burrices, porém, não exagero, como se verá a seguir. Minha conta no Banco Santos foi aberta em horário comercial, bem como todas as outras contas bancárias que já abri. Também, todos os cartões de crédito que fui convencido a aceitar foram aceitados em horário comercial. Se o gerente me procurasse depois da meia-noite com o argumento de que "com crédito, eu posso desfrutar as coisas boas e melhorar minha qualidade de vida", eu responderia, simplesmente: "Não sei, Almeida, pensando aqui com meus botões, no conforto do meu sofá e acompanhado de Ana Cristina César e de um doze anos. Não acho que esteja convencido de que pagar 350% de juros por ano seja algo saudável, sabe. Faz o seguinte, liga daqui a uns dez anos, quando os juros estiverem próximos de zero, pode ser? Não? Você quer se tornar diretor do banco em dez anos? Ótimo, quando for promovido, me dá uma ligada e me paga uma cerveja, melhor assim. Abraços na família, Almeida, até a próxima encarnação".... Marcelo Salinas Nome do autor: Marcelo Salinas Cidade, Estado: São Paulo, SP Email para contato: msalinas@folhasp.com.br Dezembro VermelhoEra o verão quente de dezembro de 1989. Eu morri pouco depois de completar dezoito anos. É, eu era jovem e atraente. Foram duas mortes distintas, ambas minhas mortes. Minha mãe tinha ido a um centro de umbanda. A mãe-de-santo previu uma tragédia para aqueles dias, algo de ruim aconteceria comigo. Não deveria sair de casa à noite, mesmo assim sai. Na tarde daquele dia, tinha injetado comprimidos de tarja preta misturados com vodka. Eram injetados na veia da coxa, já que nos meus braços era impossível, devido às inúmeras feridas. Antes de sair, comi algumas bananas. Esse foi o meu último jantar. Não era preciso aviso do além para saber que a morte me rondava. Um cara, de apelido Galo, queria me matar. Ele, além de dono de bar, era traficante também. Eu e os amigos traficávamos para ele. Só que o meu temperamento indomável não aceitava ordens. Já tinha planejado botar o meu negócio de tráfico e formar uma quadrilha. Gangue eu já tinha. Foi um erro meu acreditar que o Galo iria concordar, mas também eu não ligava. Não me arrependo de nenhum dos meus dias. Naquela noite, deveria acontecer. Tudo estava destinado a acontecer. Antes de chegar ao local, bebi vinho gelado com os amigos. Cheguei no bar completamente bêbado. Pedi cerveja para o galo e ele não quis vender. Xinguei, esbravejei e, num acesso de fúria, virei a mesa de bilhar. Certamente fúria era algo que não faltava em mim. Há casos que eu poderia citar que comprovariam a minha loucura e raiva. De quando rasguei a perna de um homem com um facão porque ele bebeu o meu vinho, ou de quando enforquei, num mato perto de casa, uma cadela que havia me mordido. Era o animal de estimação da minha vizinha. Sai chutando tudo do bar. No meio da rua ouvi quando ele me chamou. Começou a me ofender. O sangue ferveu dentro de mim. Puxei o meu facão afiadíssimo e parti para cortá-lo ao meio. Ele ficou por detrás de uma janela gradeada. Era reconhecidamente um covarde. Traficante e covardia não combinavam. Vi, mesmo no escuro, a imagem de um revólver. No entanto, continuei. Senti um formigamento no dedo. Era uma bala que havia atingido a minha mão esquerda. Outro estampido. A bala acertou o meu peito. Era calibre 22. Começaria a rasgar as minhas veias e provocar hemorragia interna, eu soube disso depois. Minha raiva era incontrolável. Mesmo mortalmente ferido prossegui. Os amigos, se posso chamá-los de amigos, fugiram. Sozinho na morte, levei o último tiro. Cai inconsciente nos paralelepípedos da rua. Pouco tempo depois senti uma mão delicada e fria no meu rosto. Era ela, a minha paixão daqueles últimos dias. Eu a havia conhecido depois de brigar com leões de chácara numa festa. Eram cinco contra mim. Apanhei é claro, mas, se fossem somente três, teria sido diferente. Ela veio me ajudar. Levantou-me e limpou o meu rosto ferido. Não soube o seu nome. Da outra vez foi num cemitério. Sabia que ela me seguia. Estava a minha gangue bebendo e se drogando no cemitério, lugar perfeito para isso, então ela chegou. Do nada. Na minha insanidade mandei os amigos a segurarem e deitá-la no túmulo. Tempos depois, fiquei sabendo que, se ela desejasse, teria nos matado sem o menor esforço. Eles prenderam os braços; as pernas ficaram soltas me chutando. Abri o zíper da calça e invadi o corpo frágil da menina. Ela se debatia, mas, no rosto, uma ligeira expressão de prazer. Saciado da minha vontade animal, deitei ofegante no chão úmido. Gritei para os outros que a usassem como quisessem. E eles aproveitaram. Não era sempre que andavam com mulheres. Eram feios e cheios de cicatrizes. No lado oposto estava eu, loiro de olhos azuis. Forte e selvagem, vestia-me sempre de preto, camiseta e jaqueta preta, e calça jeans desbotadas. Tudo fruto dos meus roubos. Ela veio me socorrer. Estranho socorrer um homem que a estuprou. Vi um carro de portas abertas. Dois homens me jogaram no banco de trás como se eu fosse um boneco. Ela ficava limpando meu rosto suado. Eu delirava. Repetia que não queria morrer, chamava pela mãe. Então, estranhamente, pude notar que havia dentes maiores na boca da menina. Eram as presas que rasgariam o meu pescoço. Senti o meu sangue sendo vorazmente sugado para dentro dela. Não sentia dor. Fiquei dormente. Ela parou, mexeu na bolsa e puxou um punhal. Com ele, cortou o pulso e ordenou que eu bebesse o sangue que escorria. Eu recusei. Ela me obrigou. Esfregou o braço na minha boca. O primeiro gosto de sangue era doce. Bebia com fome e violência, só parei quando desfaleci. Isso mesmo, quando morri. Lembro dela, falando palavras incompreensíveis perto do meu ouvido. Eram instruções. Levaram o meu corpo gelado para os médicos. Foi constatado que eu estava clinicamente morto. No necrotério, o médico legista cortou o meu peito, arrancou os meus órgãos. Eu não era mais do que um porco destrinchado. Com uma serra, tirou a parte superior do meu crânio, fez análises do meu cérebro e, depois, costurou tudo. Os meus órgãos foram devidamente postos no lugar, junto com serragem. Eu estava bem ciente do que se passava. A minha maior dor não foi física. Foi a dor dos meus pais ao descobrirem que o seu filho caçula tinha morrido tão violentamente e tão jovem. Destruiu a minha alma por inteiro. Minha mãe, quando soube, ficou deitada no chão gritando como louca, rasgando com os dedos a terra úmida. Meu pai ficou imóvel, paralisado. Só lágrimas enchiam o seu rosto. A minha família tinha dez membros. Além dos pais, eu tinha mais sete irmãos. O nosso pai era carpinteiro. Trabalhava no sol quente, construindo casas, enquanto eu roubava. Acho que fui um das maiores decepções dele, ele que era extremamente honesto, não levava um prego embora. A mãe nunca mais foi a mesma. Ela morreu por dentro, não teve mais alegrias. Porém, foi tudo necessário. O eu que eles conheciam não existia mais. No caixão simples, ganhado pela prefeitura, estava o meu corpo aparentemente morto. Vieram todos, os amigos. Deixaram uma lembrança: um pouco de cocaína para a despedida. Fiquei incrivelmente diferente. Barba rala amorenada. Olhos azuis como vidro. Uma faixa branca de hospital enrolada na cabeça. Minhas roupas de sempre. Saiam lágrimas dos meus olhos mortos. As pessoas diziam ser efeito da autópsia, mas eram lágrimas verdadeiras. Fui enterrado numa dessas gavetas que não são túmulos, mas são mais baratas. O pedreiro lacrou com cimento a tampa do meu novo lar. À noite, uma voz conhecida, a voz da minha salvadora. Ela ordenava que eu levantasse e saísse. Eu era o Lázaro dos anos oitenta. Arrebentei a tranca do caixão pobre e fraco. Tinha uma força sobre-humana. Com os pés tirei a pedra que tapava a gaveta por fora. Arrastando-me sai do esconderijo do meu corpo morto. Sentia uma sede descomunal. Ela me olhou e disse que deveríamos ir caçar. Naquele momento, renasci. Não era mais humano. Só mais uma criatura da noite. MARCELO AIRES Nome do autor: Marcelo Gonçalves Aires
O Poeta
O poeta é solidão é maresia é pescador é vaso sem flor...é chão...
Que poeta louco, não arruma a cama, nem se levanta se houve um grito, ahh o poeta é mito, saudade do mar , lembrança da infância, rua de paralelepípedo...
Ser poeta é viver, é não envelhecer, é amadurecer diante das desilusões... O poeta desvenda o mundo, despe a tristeza, desarma a alma, completa a gente, o poeta mente, mas faz sorrir...
O poeta é noite, é madrugada, é vento, rua deserta....janela que fecha, choro de criança...
O poeta é flor, é passarinho, é arvoredo, é rochedo, é mar revolto, lagoa calma, o poeta é alma....fugaz olhar....é sorriso maroto...é bala de côco, o poeta é um anjo que só faz amar.... Márcia Magalhães Nome do autor: Márcia Cristina Lio
Magalhães EXT. RUA – NOITEEXT. RUA – NOITE Los Angeles, 2019. Deckard pára seu
coupé em frente a um prédio abandonado. Abre a porta tipo escotilha. A noite é
úmida. Ele sai do carro e entra no prédio. À sua frente, vários lances de
escada. O lugar é escuro. As únicas luzes vêm de fora, dos postes de luz da rua,
passando pelas janelas, e de um enorme zepelim iluminado que sobrevoa o local.
Deckard começa a subir as escadas. Tira do coldre sua pistola automática.
Caminha por um longo corredor até encontrar uma porta entreaberta. Entra. Por
ele, passa um pequeno robô vestido com uniforme militar, marchando até o outro
cômodo, esbarrando nas paredes. Deckard segue o robô e entra numa sala repleta
de réplicas humanas, manequins e outros robôs. Um deles ri macabramente, com voz
metálica. Deckard coloca-se em frente a um robô com forma humana feminina,
coberto por um véu. Devagar, começa a tirar o véu de cima do robô. Num único
lance, a andróide chuta-o, jogando-o para fora da sala. Enquanto o homem ainda
está desnorteado, o robô se joga sobre ele e o golpeia novamente. Ferido,
Deckard cai no chão. A andróide toma distância e se prepara para outro golpe. É
o tempo de Deckard pegar a arma e atirar. Ele acerta. O robô estrebucha no chão.
Deckard atira novamente. Os movimentos cessam. CORTA. Ridley Scott, em “Blade Runner”, na
década de 80, colocou-nos frente a frente com a batalha entre humanos e
andróides, absolutamente indistinguíveis uns dos outros, numa guerra sombria
travada em uma cidade decadente, regredida a condições sub-humanas praticamente
medievais, moldada pelo nosso extraordinário desenvolvimento tecnológico e pelo
desejo andróide de subjugar a raça humana. Tudo isso em Los Angeles. E num
futuro não tão longínquo assim, em 2019. Uma das facetas mais encantadoras do
cinema é a permissividade que outorga ao cineasta. Nada é proibido, tudo pode
tornar-se real. É como estar por cima de todas as coisas e alcançar, de formas
absolutamente precisas, a realidade e a irrealidade, juntas... Em princípio,
tudo é possível. E essa extrema competência que o
cinema tem de criar realidades fictícias acaba por expor, aos nossos olhos,
verdades do nosso mundo, das nossas vidas, da nossa própria realidade. E, por
isso, nos identificamos tanto com os filmes, com seus personagens, suas buscas,
seus anseios, seus dilemas. As realidades fictícias do cinema aguçam a nossa
percepção sobre o que se passa à nossa volta. Não acreditamos que, em 2019, Los
Angeles seja sobrevoada constantemente por espaçonaves e infestada por andróides
assassinos. Mas, a realidade de “Blade Runner” traduz preocupações do nosso
tempo, o caos urbano em que vivemos, os constantes problemas raciais que
enfrentamos, a nossa expectativa quanto à tecnologia, que avança
assustadoramente com o passar dos minutos. A tão aclamada “magia do cinema” não está nos efeitos especiais (de “Blade Runner”, inclusive). Não. Não está no vôo de espaçonaves criadas por computador, nos espetáculos pirotécnicos de explosões de bases militares, nas maquiagens de monstros alienígenas, nem mesmo na beleza estonteante de atrizes hollywoodianas. Não é a ficção em si que nos afeta. O encantamento do cinema está no jogo que realidade e ficção estabelecem, em que ambas têm a mesma importância. Essa conversa entre realidade e ficção é que nos prende à tela a ponto de nos fazer comer pipoca compulsivamente. É a realidade que está na ficção que nos cativa. Se, em vez de escritor, no século XVI, William Shakespeare fosse cineasta, nos dias de hoje, talvez escrevesse: “Há muito mais coisas entre um roteiro e uma câmera do que julga a nossa vã cinemafotografia”. Marcos Sigrist Nome do autor: Marcos Sigrist, cineasta 40 massagem 50 programaClaro que é ficção. - Alô, quem é ? Fui. Troquei de cueca. Cueca ideograma chinês. Cueca Hai-kai. O taxista disse que eu não tinha a mesma cara da semana passada. Depois aquela outra piranha-orkut diz que nós, os Brutti, somos posers. Pau no cu. Não o meu. O taxista tossia pra caralho. E é isso aí, fuma, porra. Bebe, come. Mas é gente boa, metido querer saber da minha vida e as olheiras. Sacramento. Josê. - Pára na altura do 400. 400 : Centro Cultural Enxaqueca. Sério. Tá lá.Vazio. Pra quem quiser ver. Arrepio meio Allan Kardec e eu procurando o prédio exato, urbanidade, essa coisa de “em um apartamento a princesa esperando por mim”, pois sim, ela avisou que ia tomar um banho. Sempre temo pelos fetiches (link com categoria “Perversões” aqui do Brutti, de roupas vermelhas, pretas, sub-roupas de sub-mundo aparentemente sexy, tipo strip, nada mais broxante. Canal é calcinha de algodão. Da Copa do Mundo 2006.) e livros de primeiros passos em pompoarismo, nem de perto. - Alô, Josê, tô aqui em baixo. Olho mágico no meio das florzinhas azuis vermelhas amarelas, unhadas. - Posso chamar de Josê de novo ? Moreninha ubatuba cabelo loiro alisabel. (Tá foda: a playlist está em “The Summer Knows”) Fui. Ah, tem nêgo criticando na “Veja”, os escritores de frases curtas e na “EntreLivros” também. Puta negócio sujo e prostituto. Depois noutra conto. Televisão no chão, colorida, pegando mal, som alto demais e ela já indo pro quarto sem me deixar ver e reparar nas paredes de ausência sem móveis. - Como você gosta, Josê ? Massagem com mão besta, mão larva, mão de rezadeira, mão de benção antes de dormir. - Vira de frente e vou colocar a camisim. Vejo a barriga. Cesárea mal feita. - Sempre a história de filhos. Toda puta tem filho e
virou puta pra nutrir e essa tragédia toda. Você é uma puta. Bom. Me
conforta. E fez. Boca boba. Boca besta. Boca de benção. Lembrei, vi agora, a calcinha era vermelha de rendinha e minha cueca ideograma tava misturada lá no bolo de sub-roupas, queria separar as coisas, meu lado Roberto Campos, deixei pra lá. Boquete mais vagabundo, sem som. Não estalava a saliva. Nem pedi gemido. Não me chame de amor. Vagabundo demais até ser algo perigoso afetivamente. Meio budista. - Você é de onde, Josê? Coloquei de 4 e meti. Ela escondeu, pelo espelho, o rosto nas mãos. Se chorasse, valeria os 50, com lance de gêmeos e sofrimento na vida, seria show de bola. Mas nem isso. Só no espelho sem rosto. - Papai e Mamãe, Josê. Deita. E fui. Paulão. (Playlist : “Dream”). Nada. Saliva sonora zero. Gemido claro que negativo. Sem dor. Sem nada. Ela coçou o olho direito. Tá, já li sobre isso em livros daqueles caras que os jovens cabeludos gostam. Me mantive na guerra dos malditos. Sou mais eu. Ela é pobre, eu sou escritor, porra. Estocando e fazendo todos movimentos que deveriam causar impacto. Páthos. Prazer. O 8. O rebola. O devagar-de-repente-rápido. Nada. Sidarta Gautama. - Josê, por Deus, existe alguma posição que você
goze? E metendo. - Tá. Guerra ainda não vencida. Toma esta e mais
essa. Vi o assassino em mim. Já fiz coisa errada. Mas não no centro da cidade. Jogar o corpo pela janela ? Primeiro andar ainda por cima, baixo, sei lá. - Certo. Você venceu escrota, plebéia, morta de fome, doente, inculta, lazarenta, não liga, né ? Posso xingar, não liga, é burra, toma fanta uva, é pos-doutortanda em filosofia pela PUC, a tua mãe é uma santa, você acaba de ganhar seus 50 reais, toma, pega, mas tira a camisinha do meu pau, não quero relar minha mão de nobre Saint-Just em sua secreção anti-hiv negativa. (Playlist : “My Heart Will Go On”, deuses dos mares, o que eu fiz de errado ? Que ponta de iceberg é essa?) Ela tirou. Impácida Impávida Colosso. Eu me vesti. Joguei os 50 sobre a cama, mas nenhum ato meu faria sentido teatral. Ela tinha vencido. Porrada total. Me vesti, eu me vesti tentando ser na boa. Não sentia náusea, ódio, nada. Crime perfeito. Vazio. Não, não era a iluminação. Eu não sou Jack Kerouac. Rua. Andei até uma mulher amamentando. É. O marido montava uma barraca hippie. A mulher disse: - Porra, ele cagou de novo. O marido ficou quieto, na lida, labuta. - Aí parceiro… - eu seco soltei no ar como um
pássaro. Nos demos as mãos. Ele tinha unhas longas e limpas. Levantei com o colar. (Playlist : “O Melhor do Faroeste de Ennio Morricone” Ufa.) Fui beijar a mulher e a criança. - Não, ela cagou. Paulo Castro Nome do autor: Paulo Castro Cidade, Estado: Campinas, SP Website ou Blog: http://www.literaturacorporal.blogspot.com e http://www.editoratabu.com.br Email para contato: pcpsiq@uol.com.br Sem TítuloNome da Obra: (sem título) Ricardo Wagner Nome do autor: RICARDO WAGNER ALVES
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