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    A Noite se fez para Clara

    Dor de cabeça. Sozinha Clara resolveu andar pra ver se se esquecia de ser, ao menos um pouco. No bar pediu uma bebida qualquer, era mesmo pra descansar os olhos. Bem nutrida, fingia ser um cadafalso sua vida, mas nada poderia ser comparado ao desjejum, perdida nas horas, sem encontrar resposta a vozes que emitia por pura vingança, vozes humanas ela poderia ouvir sim. Mentir que não havia nada pra se resolver com ela. Mentir que as dores de cabeça não provinham da sua mente inquieta. Ler livros da literatura clássica. Balzac poderia lhe dar um alívio, não se sentia mais tão amarela no canto da mesa. Era pura peça de arte. Criava personagens que se misturaram na lembrança e criaram Clara antes dela pensar em se criar. Vinha primeiro os arroubos que nunca encontrou e parou de sonhar. Ou parou de pensar em personagens que sonhavam se consolar em Clara. Agora Claudia, depois árvore tímidas e rancorosas. Imensas, mas sem encontrar o céu. Agora Iara, perdida em contos de areia, com o vento da praça a lhe ruminar.

    Sentou no bar e pediu uma bebida para não parecer procurando alguém, para não correr o risco de ser abordada, e tratada como frágil, de ser tratada como uma princesa esquecida e depois abandonada. Respirava, mas podia ser pedra e as pessoas passavam.

    Naquela manhã não acordou e o quarto anoiteceu. O frio emanava das paredes, das luzes apagadas como um insulto azul-pertinente. Com olhos abertos e sem vida para existir ela hesitou em sair da cama. Mas um medo a alcançou. Sentia no seu silêncio voluntário a agressão desse próprio silêncio, um medo de que lhe comprimisse a cabeça, o corpo todo, que implodisse, seca e sem alarde. Morta sozinha num quarto escuro isolado numa casa vazia.

    E se livrando do sentir se obrigaria a caminhar até o bar onde pediria uma bebida. E eles passaram: pessoas são pessoas, infelizmente. A vida lhe parecia tal que não mais existiam crianças e nem cachorros perambulando vadios nas ruas. Apenas Clara que não lembrava ter sido criança e os cachorros presos que acharam nela uma diversão.

    Podia acreditar fielmente ser invisível. As pessoas são pessoas e passam, tropeçando em pernas de mesa, engarrafando-se nas portas dos banheiros, e conquistando com o bafo esquizofrênico qualquer um que queira ser conquistado, não se pode perder a noite, a noite é da conquista.

    Entre vencedores Clara não se encontrou. Eles não a viam. No bar não havia solitários. E ela poderia ser bem notada, mas não o era.

    E sentiu um alívio. Não queria mesmo ser vista.

    Notou os passos dele, parecia abrir uma trilha, se lançando ao desconhecido, não por coragem, mas por desconhecimento da fraqueza. Clara se sentiu pequena e vulgar em sua presença. Percebia seu rosto limpo, e sua maneira que parecia não ensaiar modos ou antiqualquer coisa para não ser visto. Seu olhar era perdido como de um cego. Entrava naquele bar barulhento e cheio de pessoas que se entorpecem para se sentirem vivas e atraentes como se somasse nele todos os desejos.

    Enjoou-se em complacência, em autopiedade. Quem ousaria sentar em outra mesa em sua frente encarnando o silêncio como só ela o faria? Não foi percebido por ninguém, mas sua presença foi violenta a Clara.

    Naquela noite ela ouviria sua voz e não iria falar consigo mesma. Naquele instante sentiu o prazer de querer falar com alguém, apesar dos riscos, afinal temia encontrar ali, naquele alguém sozinho que transparecia ser tão verdadeiro, e verdadeiro no sentido de real, de alguém que realmente existe, e não um homem-produto, embalado em força e em promessa de lhe transmitir segurança.

    A mãe e o pai. A segurança. A angústia da solidão.

    Sua voz interior iria ser som. Ela teria que lhe falar. Ainda que correndo o risco de encontrar nele réplicas fragmentadas de falsa perfeição, de sentimentos mofados de tanto esperar encontrar o perfeito, que depois em amarga desistência pensa em modelar e lapidar o defeituoso.

    - Antes do sol nascer eu terei te conhecido; ele disse antes que ela pensasse em pontos e encruzilhadas;

    - Eu não procuro mais florestas virgens nem grandes mares povoados para me encontrar, mas me esqueci em meu quarto escuro com livros empilhados que me perturbam em noites quentes causando vertigens e alucinações quando não há ninguém para chamar, não há vistos de passagem e num descontrole corro na rua para pedir um cigarro a alguém, mesmo que eu não fume, assim saberei se existo ou me imagino existindo, respondeu Clara em tom de monólogo;

    - Para inspiração de ser você em completude terá que se despir das armas de proteção, essa bomba-relógio que mata sua ingenuidade, tornando-a incapaz de ver você mesma no homem da esquina, aquele mendigo, a quem você pediu cigarro;

    - Não sei se o resumo de minha vida foi eu quem fez ou se deixei que ele acontecesse. Conheço de cor os caminhos do trabalho, do cinema, da biblioteca, as subidas, as laterais do muro grafitadas;

    - Se incomoda com o cisco no vidro do carro porque sua visão se concentra naquele cisco, e tudo envolta se desfoca;

    - Eu tenho medo de já ter dito tudo e sentido todos os sentimentos disponíveis. Tenho medo porque tudo parece congelado, não há mais novidade, e não me sinto feliz nunca, de uma maneira esfuziante e natural, e tenho medo de você por me causar sensações que precedem o óbvio.

    Uma chuva de repente, fez com que as pessoas acordassem de um estado anestésico no bar. A maioria das pessoas que conversavam estavam sentadas em mesas do lado de fora, e com a chuva perderam a certeza de seus personagens. Quebrou-se o encanto produzido pelas análises noturnas.

    Quando Clara se virou novamente para ele... Sentia uma vontade tão grande em vê-lo na chuva. Como se comportaria, correria? Mas só viu aqueles olhos escuros em pensamento, como se estivessem ainda ali, orando por ela. Ele não estava mais lá.

    Ele fugiu? Ou era eco de sua imaginação solitária? A chuva continuava, seus olhos eram o único sentido acionado. Via o bar vazio do lado de fora e as mesas e as cadeiras descansando enfim, a chuva purificando, algumas pessoas despreocupadas na janela...

    Onde ele poderia estar?

    Alguém a puxou pelo braço e falava rindo algumas coisas que ela achou melhor não tentar entender. Levava-a para dentro daquele bar, e as pessoas falavam alto lá dentro.

    Clara o procurou entre eles: impossível. Não sabia se aquele que a levava para dentro era ele. Não se lembrava como era seu rosto, ou sua altura. Nem seu tom de voz. Não saberia montar sua imagem na memória e certamente não o reconheceria entre aquelas pessoas que falavam tão alto.

    Um zunido forte perturbava sua cabeça, era mais alto que as vozes. Mais do que perguntas, tinha que dizer a ele quem era, tinha que falar.

    § § §

    Os livros de literatura clássica empilhados pelo chão do quarto latejavam, ansiavam dolorosamente pelo contato das mãos de Clara, pelo peito de Clara, que os apertava, mastigando e engolindo cada história, sujeitando seu batimento cardíaco ao daquelas ficções, pulsando e cobiçando sua vida.

    Clara entrava em seu quarto, saía de sua casa, às vezes esquecia de fechar as portas, de abrir a janela, às vezes esquecia que andava pela casa o dia todo, pelo quarto, pela sala.

    Não sabia o rumo que daria a sua história. Não sabia se era ela que poderia escolher.

    Decidiu que iria pausar sua vida na decisão de encontrar aquele que poderia ser apenas um anjo e que não mais poderia ser visto.

    Na rua os cachorros presos não latiam mais para ela. As ruas pareciam mais compridas, retas, como se não levassem a lugar nenhum. Andava por horas nas ruas retas sem se cansar.

    De não muito longe reconheceu sua casa e a janela de seu quarto, como um milagre ruim em sua frente. Vontade de chorar. Havia outra rua. Andou muito tempo envenenada pela expectativa. A rua acabou em sua casa novamente. Tentava a todo custo reconhecer o caminho de volta aquele bar, mas todas as ruas terminavam em sua própria casa, em seu próprio rosto choroso e desesperado. Por mais que buscasse caminhar em todas as ruas possíveis que tinham como ponto de partida a sua casa as ruas terminavam como haviam começado, por mais que caminhasse, as horas não passavam.

    A noite estava estacionada esperando uma decisão.

    Sua consciência espantou-se em sinceridade, transformando toda a angústia em lucidez, tornando toda a dor um motivo de reflexão.

    A noite se deteve para Clara que não encontrava mais o caminho do bar. Se fez rua, asfalto e amplidão. Baixou as estrelas para o contato das mãos. Exagerou o brilho da lua para cegar aquele olhar. Silenciou os humanos. A noite se fez para Clara.

    Que percebeu a existência da escolha, de seu corpo todo pulsar uníssono ao desconhecido.

    Optou pela entrega ao abismo.

    Ana Paula Sant´Ana

    Nome do autor: Ana Paula Sant’Ana
    Cidade, Estado: Cuiabá, MT
    Website ou Blog: www.rudepoema.blogger.com.br
    Email para contato:
    empoema@gmail.com


    Primeiros amores, noites aflitas e rádio

    (Escrevi quando tinha 16 anos e o atualizei aos 30)

    "Droga! Droga!" Como todo sábado ao cair da tarde, ela estava em frente ao espelho lutando desesperadamente com seus cabelhos castanhos, encaracolados e eternamente avessos às regras que ela tentava lhes impor com um grande pente de madeira. Nesses momentos de intimidade, ela costumava fazer um longo exame de seu rosto. Os olhos castanhos, grandes, eram companhia perfeita para as sobrancelhas grossas e bem feitas. O nariz não era muito delicado, mas somado à boca carnuda e rosada, combinava com o conjunto. Sim, ela estava satisfeita com a aparência de seu rosto e gostava de si, se achava até mesmo bonita, apesar de um pouco gordinha. Mas os cabelos ... sempre se recusando a obedecer aos movimentos repetitivos do pente. Vencida, ela dava-se por contente e ia para o quarto.

    Esse aposento da casa não era muito grande, mas ela o dividia com mais três irmãs. Num sábado à noitinha, era raro que alguém ali ficasse. E era ali, longe dos (muitos) ruídos da casa, que ela iniciava seu programa de sábado à noite. Estava apaixonada. Ele tinha que ligar.
    Olha de relance para o despertador sobre a cabeceira: vinte para as sete da noite. Muito cedo ainda!

    Ela liga o rádio bem baixinho, desliga a luz e fica deitada, no escuro, aguardando. O rádio antigo, preto, devia ser dos anos cinqüenta. Funcionava com válvulas que esquentavam bastante e tinha uns botões redondos ranhurados, cor de creme . Ele era seu habitual companheiro de espera, a qual nunca tinha hora certa para acabar.

    “Menino, onde você estava até esta hora? Vá já tomar banho!” Os gritos de sua mãe sinalizavam a chegada de seu irmão mais novo. Menino levado, desobediente. Tinha ainda uns seis anos, mas ninguém podia com ele. Ela, no entanto, estava tão voltada para sua própria ansiedade, que mal se dava conta de como os acontecimentos se desenvolviam ao seu redor. Ela sofria o sofrimento mais doído, aquele de quem experimenta as tristezas da vida pela primeira vez, quando a alma, ainda não calejada, recebe os golpes diretamente, sem proteção nenhuma. E que por isso doem muito mais.

    Por que esperar? Por que não ir até a sala e usar um dos mais extraordinários inventos humanos, o de Graham Bell? Quando se é adolescente, as convenções sociais têm um peso muito grande. Nos anos 70, apesar de toda a liberação pregada, mocinhas não deviam tomar iniciativas no campo amoroso. O exercício da liberdade ainda era reservado aos homens: ele deve ligar. Enquanto isso, aprisionando a própria vontade, ela sofre em seu quarto, e aguarda. E pensa nele. O que estaria fazendo agora? Estaria conversando com alguém, um amigo? Que amigo que nada! Certamente estaria conversando com uma moça. Provavelmente já estaria pronto para sair para algum barzinho na cidade, com programa já acertado...” E eu aqui, idiota, esperando! “

    Ela acende a luz e procura novamente na cabeceira o relógio. Oito e meia. “Nem cedo, nem tão tarde”, pensa ela. Afinal era sábado. Oito e meia num sábado é cedo. Cedíssimo. “Será que ele vai me ligar?” Ela apaga a luz, deita-se e volta-se para a parede. Um turbilhão de pensamentos toma conta de sua cabeça. Talvez ele já tenha até saído. Talvez ele nem se lembre do sábado anterior, quando ficaram horas batendo papo, se abraçando, se beijando, dentro do fusquinha azul dele. Ela era apenas mais uma, mais uma sem importância. Como os homens podem ser tão frios, desalmados? Ela chora baixinho. E aguarda.

    Nove e quinze. De um solavanco, sua mãe abre a porta do quarto e acende a luz. “Menina, o que é que você está fazendo aí sozinha no escuro??” Sua voz estridente soa como uma sirene .

    Irritada, até mesmo indignada por ver seu momento íntimo de fraqueza e desespero invadido daquela forma, ela grita que só está ouvindo um pouco de rádio, que naquela casa cheia de gente não se pode ter sequer um momento de paz, que um dia ela vai ganhar muito dinheiro e vai embora dali, pra nunca mais. A mãe nada responde. Apaga a luz e fecha a porta. Em total silêncio.

    Ela cai num pranto convulsivo. Fica ali, no escuro, chorando, não sabe por quanto tempo. Ela não queria ter maltratado a mãe. Só que ... já eram nove e meia, ele ainda não tinha ligado, não ia mais ligar. Nove e meia, num sábado, já é muito tarde, tardíssimo. “Por que? Por que?” Cansada. Olhos inchados, ela adormece.

    De repente, acorda sobressaltada, acende a luz e olha mais uma vez para o relógio, com seu tic tac indiferente: dez e quarenta. Acabou, passou. THE END.

    Resignada, ela se levanta e sai do quarto em direção ao banheiro. Na cozinha ,sua mãe, já de camisola e ainda chateada, toma uma xícara de chá. “Um rapaz telefonou. Não quis que eu acordasse você. Disse que liga amanhã.” Ela abraça a mãe com força e pede desculpas. Corre para o banheiro e sorri para o espelho.

    Aurea Terranova de Alexandria

    Nome do autor: Aurea Terranova Lopes de Alexandria Weber
    Pseudônimo: Aurea Terranova de Alexandria
    Cidade, Estado: São Paulo, SP
    Website ou Blog: http://spaces.msn.com/aureaterranova/
    Email para contato:
    aurea.terranova@gmail.com

    Amnésia

    ou amnésia, ou ressaca:

    - a escolha é pessoal e intransferível

    esqueça em cima da mesa do bar

    as revelações de alguns flashs

    as etiquetas das nossas costuras

    a incompetência do que se chama amor



    dê de gorjeta ao garçon

    o soluço das muitas neuras

    as respostas que nos consomem

    as mordaças que nos diluem

    a esperança que exorciza

    o personagem que resiste



    ou



    brinde em derradeiro gole

    tudo aquilo que inventamos

    em dose letal

    o nosso próprio veneno

    que lateja goela abaixo

    engasgando nossos silêncios

    Beth F. Almeida

    Nome do autor: Elisabeth Pinto Ferreira de Almeida
    Pseudônimo: Beth Almeida
    Cidade, Estado: Belo Horizonte, MG
    Website ou Blog: www.bethalmeida.com.br
    Email para contato: bethfalmeida@uol.com.br

    A Festa dos Faraós

    Como fazia desde que perdera o emprego de redator publicitário, Ramiro chegou ao apartamento em Higienópolis e repetiu o ritual.
    Abriu o bar e pegou um copo de uísque. Com a outra mão, uma latinha de castanhas-do-pará. Depois colocou uma pedrinha de gelo no copo baixo, ligou o som e foi até o quarto. Despiu-se ao som de Buena Vista Social Club.
    Entrou, com o copo de uísque no box, cantando uma faixa de Compay Segundo .
    - Chicharrones! Chicharrones!
    Beber uísque debaixo do jorro de água quente era a maneira que Ramiro encontrava para relaxar.
    Ao sair do longo banho deu uma ouvida nos recados na secretária.
    - Ramiro, Soraia falando. O dinheiro do freela só vai sair daqui a três semanas. Sorry! Te vejo na Festa dos Faraós…
    - Fala, Ramiro! Aqui é o Ricardo. A festa dos Faraós é hoje à noite, já tá com a fantasia?
    - Ramiro? Passa aqui antes de ir à festa. A gente vai fazer um aquecimento. O Fê providenciou três garrafas de Famous Grouse. Traz você e o gelo, nenê.
    Ramiro saiu do banho enrolado numa toalha branca onde lia-se bordado " R.C." - Ramiro Castro.
    Pegou outra dose do uísque, jogou duas castanhas na boca e foi até o quarto de vestir. Escolheu uma calça Diesel, uma camiseta preta e jogou um blazer por cima. Nos pés, o tênis vintage favorito.
    Sorveu o copo, dessa vez sem gelo, de um gole só e saiu rumo à casa de Zeco.
    Zeco Hernandez era publicitário de criação como Ramiro, só que vinte e tantos anos mais velho. Descolara o primeiro emprego dele, quando era diretor de criação da prestigiada Connection-8. Possuía uma dúzia de Leões no Festival de Cannes, dezenas de viagens internacionais no curriculum e fôra elogiado pela mídia internacional. Só que agora estava com mais de 60, um mal de Parkinson recente o atormentava, tinha uma dívida de muitos mil dólares entre impostos, aluguel , pensões alimentícias e o padeiro.
    Zeco sabia como viver, não sabia como gastar. Ou melhor, sabia gastar, mas como um rei africano.
    Ao chegar na frente do apartamento de Zeco, em Santa Cecília, Ramiro teve de se esquivar de dois homens-cobertor na calçada. Um deles quase encostou em seu paletó Zara. No ról do velho prédio, o porteiro ouvia ruidosamente a Nativa FM. O cheiro de cebola frita e alho no corredor embatucou seu estômago. Tocou a campainha várias vezes. Nada.
    Resolveu empurrar a porta. Lá estava o velho Zeco, como de praxe. Ressonava em frente a uma tevê ligada, a indefectível garrafa de vodca pela metade a seu lado e moscas voando sobre um prato com restos de pizza de calabresa.
    Ao sentir a presença de Ramiro, levantou-se de supetão. Antes mesmo de abrir os olhos , deu dois grande goles no gargalo e, sem claquete, começou a desfiar seu palavrório infindável .
    - Olha, comi muita mulher naquele 1979. Só rapariga de 500 talheres…
    O velho deu outro gole na vodca quente e engoliu o resto de pizza fria e gordurenta.
    - Esse mercadinho feito de vampiros, parasitas e filhos-da-puta me tratava como o príncipe da Dinamarca. Eu dava muita grana pros clientes dels com as minhas idéias. E é isso o que interessa. O resto é merda.
    - Por que você não volta pruma agência? - indagou Ramiro, abrindo a geladeira na captura de uma latinha de cerveja.
    Zeco rugiu:
    - Agência? Eu? Vai se foder! No meu tempo de redator era como uma aula do Segundo Grau. Todo mundo zoando todo mundo, jogando giz, uma puta diversão. Hoje é um monte de caras tristes, narigudos, de frente pruma tela de computador...
    A cerveja estava choca. Mesmo assim, Ramiro encarou.
    Zeco continuou.
    - Devo pra cacete, não nego e não pagarei quando puder. Mas, porra, vivi!
    Foi cai-não-cai até uma mesa de apoio no corredor e trouxe a estátua do Leão de Cannes dourado numa mão e a garrafa de vodca Balalaika prateada na outra.
    - Me atraquei com uma francesa em Cannes na varanda do primeiro andar do hotel Martinez. O publicitários que estavam no bar do térreo, viram e bateram palmas, Já tracei mulher pra cacete! Uma fila de putas, Ramiro. E daquelas acostumadas a pedir caviar a 11 mil metros de altura…
    Zeco disse a última frase, derramou o quarto de garrafa de vodca no meio das pernas e caiu no sofá, dormindo.
    Não havia mais dúvida para Ramiro: fizera muito bem em não ter ido à Festa dos Faraós.

    Carlos Castello

    Nome do autor: Carlos Castelo
    Cidade, Estado: São Paulo, SP
    Website ou Blog: http://www.castelorama.com.br
    Email para contato:
    carlos.castelo@snbb.com.br 


    Dona Tristeza

    Se corro pelo mundo é para achar uma parte do meu ser que me diga aonde ir.

    Descansa um pouquinho Tristeza, sente-se aqui comigo. Não entendo para que tanta andança.

    - Whisky? Nao, a tristeza não fala.

    - Água por favor. Sentes sede? Tanta correria, por que não te sentas? Aqui, ao meu lado. Prometo dar-te o carinho necessário. Vem eu não lhe farei mais triste do que tu já és. Me dê a sua mão aqui, toca-me o sexo quente. Sente? E os meus seios? Sente, chora. Mas por que choras? Por que sentes eles duros, eles querendo vida? Olha-me nos olhos! Tu vês? Eu, bela! Levanta, samba comigo, pega nos meus quadris, sente o meu movimento. Samba, Tristeza, samba! Dança em cima dessa sua branca poesia. O que queres que te ensine? Que escreva em sua folha em branco? Não, vem! Toma um gole, só um golinho tristeza! Você vai ficar menos tristinha, um pilequinho só dona Tristeza! Ai mas quem te fez assim? Tão arredia? Olha, olha a sua volta. Vê alguém triste como tu? Não! E por que não? Porque ninguém aqui tem medo de sofrer. Olha nos olhos a sua volta. De uma volta pelo mundo. Eu não entendo. Não compreendo por que tanta grandeza e profundidade se tu és tão mirradinha, dona Tristeza?

    Olha esses pés! Tão pequeninos, tens medo de cair não é? Deve ser. Tu não falas nada? Por que? Ai, mas que Tristeza chata! Vem cá, chega mais perto do meu corpo, sente o calor que meus sentidos exalam. Agora sentes? Não precisa ficar assim, trêmula. Que belas coxas! Humm, devias mostrar mais esse seu corpo. Pele macia, ai dona Tristeza! Senta aqui no colo, não, assim não, risos. Senta virada para mim. Agora olha-me nos olhos e sente a minha mão por entre as suas coxas, isso, gostas? Claro que sim Tristeza! Quem não gosta! Não tenhas medo! Mas por que choras? Goza? Ah sim! Goza, dona Tristeza, goza!

    Fernanda C. Luz

    Nome do autor: Fernanda C. Luz
    Cidade, Estado: Rio de Janeiro, RJ
    Website ou Blog: http:/fernandaluz.multiply.com   
    Email para contato: dluzz@ibest.com.br


    Testemunha

    Madruga.

    Toda madrugada é assim.

    Bares e boemia.

    Calouros e veteranos entram no clima.

    Quente. Muito quente.

    Antes de deitar, alguém pratica o canto evocativo de Deus.

    Nas ruas, putaria e alegria.

    Ou seria tudo a mesma cousa?

    Rua dos Alecrins, coração do Cambuí, bairro dos jovens endinheirados,

    bonitos e modernos. Em frente à praça, ao lado da escola de educação infantil

    de R$1.000,00, num casarão velho por fora e luxuoso por dentro, contrastando

    com as edificações verticalmente chics plantadas no espaço urbano, lágrimas

    descem em ondas suaves umedecendo a pele ainda fresca da balzaquiana que

    espera o sono chegar.

    Madrugada.

    Toda madrugada é assim.

    Quando o dia amanhece ela se olha nos muitos espelhos espalhados pela casa,

    ensaia o melhor sorriso, ensinamento que aprendeu ainda muito jovem com

    uma sabia senhora nissei, orientadora das reuniões de Estudos da

    Prosperidade:"Sorria. Sorria sempre menina. Com a prática, seu sorriso

    parecerá espontâneo e você vai se sentir melhor sorrindo. O sorriso atrai

    prosperidade."

    A técnica funcionou. São muitos os elogios ao seu sorriso, à sua vivacidade, a

    felicidade que transborda daquela escultura divina vestida de mulher.

    Que motivo teria ela para ser infeliz, se a natureza lhe presenteou com tão

    bela roupagem natural? Não nasceu rica, mas conquistou o conforto material

    com seu trabalho honesto, um atlético marido vegetariano e os dois meninos

    lindos que saíram do mesmo óvulo pelo mesmo orifício em que entram, tudo

    isso sem romper membranas, parto liso, de cócoras, como toda mulher culta

    sonha e todo médico "cesarista de carteirinha assinada" tem pesadêlos.

    Deve ser uma amaldiçoada. Daquelas que carregam o demônio por dentro. Ele

    deve morder seu estômago, e ela chora da dor que sente e não pode ser

    medicada. Na faculdade de medicina não se ensina a diagnosticar demônios.

    Ou não.

    Seria "o infinito amor de Deus que flui para o seu interior"?

    Toda madrugada é assim.

    Ela pratica o Shinsokan, deita, e lá pelas altas horas, lágrimas descem em

    ondas suaves umedecendo a pele ainda fresca da balzaquiana.

    Eu sou a única testemunha.

    Gata Guu

    Nome  do autor: Adilma Nascimento
    Pseudônimo:
    Gata Guu
    Cidade, Estado:
    Campinas, SP
    Website ou Blog:
    http://www.gataguu.blogspot.com
    Email para
    contato:gataguu@gmail.com


    Mesmo

    De quando em quando

    Me encontrei

    Quase em um instante

    Me esqueci

    Enquanto isso

    Me desesperei

    Mesmo eu mesma
    nem senti

    Quando de ti recebi

    Taça de prata
    Um suave veneno

    BEBI

    Senti meu corpo estremecer

    Fechei os olhos

    Adormeci

    Lena Moonwhisper

    Nome  do autor: Marcia Regina da Silva Baliza
    Pseudônimo: Lena Moonwhisper
    Cidade, Estado: São paulo
    Website ou Blog: http://www.darkmoonwhisper.blogspot.com
    Email para contato: m.resil@gmail.com

    Parece que o poema andou bebendo

    Incrível como sobram reticências nos vãos destes lençóis roucos
    como sobra espaço em nós
    no meio desse laço frouxo
    desse traço pouco

    Incrível como me falta o ar
    entre os hífens
    vou sorvendo desse copo
    um jazz tristíssimo
    inventando
    amores sísmicos

    Por isso
    sempre acabo arrebentada na mesa de um bar
    indícios de um coração na mão
    e um Jackie Daniels na garganta.

    Jackie parece nome de puta.

    Luana Vignon

    Nome  do autor: Luana de Carvalho Vignon Guimarães
    Pseudônimo: Luana Vignon
    Cidade, Estado: Araçatuba -SP
    Email para contato:  
    luana_vignon@hotmail.com

    Las Vegas ou Uma prostituta no espelho

    Hoje me deu vontade de ir para o Las Vegas. É um bar imundo que fica no centro velho de Araçatuba, é onde ficavam as minas e os drogados quando ainda existia aquele puta cinema na esquina. Quando eu ia lá não sabia de muitas coisas, não sabia, por exemplo, que o lugar combinava perfeitamente com uma canção do Johnny Cash ou da Patti Smith, dependendo do dia. Não sabia que transar com camisinha era tão ruim. Não sabia que sexo era uma coisa tão complicada e que o amor não resolve merda nenhuma. Eu não sabia que após os 16 a dor tinha outro nome.
    Hoje me deu vontade de ir para o Las Vegas e mijar de porta aberta, sentar no balcão e tomar três rabos de galo, um atrás do outro, sem fechar os olhos, sem fingir, nada de comprimidos pra dormir.
    Era bom aquele cinema que ficava perto do bar. Era grande, velho, e exalava um delicioso cheiro de mofo & porra. Eu não sabia que dançar Leonard Cohen no escuro era tão bom.
    Hoje deu vontade de ir para o Las Vegas por que esses dias cinzas de chuva combinam com um blues da década de trinta, combinam com prostitutas ensopadas implorando alguns cents pra alimentar seus homens famintos, combina comigo mendigando tempo e atenção de alguém realmente insignificante como eu, alguém sentado num balcão sujo, sem muito o que fazer, sem alguma esperança de que as coisas mudem na próxima estação.
    Naquela época eu não sabia que a cocaína podia estancar tanta hemorragia, não sabia que Sister Morphine era nome de uma música e nem que Marianne Faithfull recolheria um dia meu corpo em frangalhos em cima de uma cama.

    Luana Vignon

    Nome  do autor: Luana de Carvalho Vignon Guimarães
    Pseudônimo: Luana Vignon
    Cidade, Estado: Araçatuba -SP
    Email para contato:  
    luana_vignon@hotmail.com


    Sensatamente

    Tudo que quero,
    é não acreditar na verdade,
    por isso sou uma mentira ?
    não acredite nas palavras!
    não acredite na verdade!
    não acredite em mim!

    Tudo que quero...
    É acreditar na noite.
    Exalar o último suspiro,
    quando amanhecer.
    Sem ter que pedir desculpas.
    Sem fantasias idiotas.
    Sem palavras escritas.

    Com amor sem verdade,
    com amor sem mentira.
    Com amor de uma lágrima viva.

    Insensato é acreditar na verdade.
    Insensato é cheirar a verdade,
    vomitar a mentira.

    Insensato é sonhar com a felicidade,
    chorar a tristeza.
    Insensato é beber sem estar sóbrio,
    comer sem fome,
    nadar sem água,
    fugir do vento.

    Insensatos, somos nós!


    Lúcio Almeida

    Nome  do autor: Lucio Souza Almeida
    Pseudônimo: Lucio Almeida
    Cidade, Estado: São Paulo -SP
    Website ou Blog:  http://www.fotolog.com/mcaacm
    Email para contato: luciomca@hotmail.com



    Morte ao horário comercial

    Disse Schopenhauer que a capacidade que alguém tem de tolerar ruídos é inversamente proporcional à sua capacidade mental. Essa frase foi usada pelos críticos do rock, quando este ainda engatinhava, e pelos do jazz, quando os roqueiros ainda não haviam nascido. Uso-a literalmente, isto é, para tratar dos ruídos literais, não dos musicados, sem intenção explícita de criticar axé, funk ou o que chamam hoje de rock nacional, gêneros com os quais tenho uma relação ambígua: provocam-me repulsa em condições normais e certo prazer, quando bêbado. Se Dali ou Godard ficam interessantes depois de algumas doses, por quê Tati Quebra Barraco não ficaria? Mas divago.

    Traduzindo: "Os que suportam muito barulho são muito estúpidos; os que não suportam nenhum, brilhantes, e os que toleram medianamente, nem burros nem inteligentes". Dessa forma, noites e madrugadas, mais silenciosas, estão para o pensamento e a reflexão como o resto das horas, com seus diálogos e zombidos, para a impulsividade. Na visão minha e na do filósofo, se ruído e
    reflexão fossem adjetivos, seriam antônimos. A minha não importa muito, pois, como o leitor esclarecido já percebeu, fundo esta "crônica de
    protesto" no pensamento de uma autoridade, uma velha técnica de manipulação.
    Chama-me de sofista? Ora, quem nunca tentou empurrar um silogismo retórico numa conversa de bar que atire o primeiro bolinho de bacalhau. Ok, corrijo: onde se lê "silogismo retórico" leia-se "empulhação" e, ok, pode jogar a garrafa. Vazia, claro, pois arremessar uma garrafa sem antes beber o que tem dentro seria um atentado. Proteste com responsabilidade. Novamente, divago.

    Com base nas conclusões do filósofo, lanço aqui o movimento "PENSE DE NOITE E FAÇA DE DIA". O objetivo é "fazer um mundo melhor", como não poderia deixar de ser, já que todo movimento organizado na história da humanidade (nazismo e pacifismo beatnik inclusos) se propuseram isso. Para Hitler, o mundo seria melhor sem judeus. Para os beats, bem... o que eles propunham mesmo?

    O primeiro e único mandamento desta mobilização é: "NÃO TOMARÁS DECISÕES ENTRE 7H E 22H". Eu escrevi "único"? Bom, esqueça. Tem outro, variante radical do primeiro: "NUNCA, SOB NENHUMA HIPÓTESE, DECIDIRÁS SOBRE SUA VIDA EM HORÁRIO COMERCIAL".

    Estas leis, se aplicadas, nos salvariam da selvageria, das guerras, da estupidez. Justifico-as com quatro argumentos quase irrefutáveis. O
    primeiro: na madrugada, o tráfego de idéias que passeiam pelo ar, assim como o das ondas de rádio, é menor. Isso diminui a interferência que captamos em nossas "antenas". Um exemplo: sabe quando, à noite, encontramos a solução para um problema sobre o qual havíamos pensado durante o dia? Essa idéia estava lá, na atmosfera, o tempo inteiro. Porém durante o dia são tantas e tão conflitantes que é difícil hierarquiza-las ou captá-las na freqüência correta. Não acredita? Eu também não, mas a metáfora é boa. Não acha?
    Passemos para a próxima, então.

    Segundo: assim como nos bancos e Pãos de Açúcar 24 horas, no INSS, e no MacDonalds, as filas nas madrugadas são menores. Refiro-me, neste caso, às filas para uma audiência com Deus, ou, até, com nossos "eu mesmos". Ficamos mais disponíveis a ouvi-los e a refletir sobre o que nos tem a dizer. A razão é simples, leitor. Como há menos gente acordada, o divino ser que nunca dorme está mais livre para ouvir nossa ladainha. O mesmo vale para ouvirmos o que diz nosso espelho, o que costumam chamar de "reflexão". Como
    estamos sós, não precisamos dividir a atenção que deveríamos dar a nós mesmos com ninguém. Algum chato pode dizer que, enquanto é noite no Ocidente é dia no Oriente e blá blá blá. Assim, podem afirmar os estraga-prazeres, há em nossas madrugadas bilhões de chineses acordados tentando contato em horário comercial com aquele que tudo vê (e, claro, tudo ouve). Mas não dê ouvidos aos chatos e estraga-prazeres, pois, como demonstramos, são chatos e estraga-prazeres.

    Penúltima justificativa: protegidos pelo sono do outro, que, dormindo, não nos ameaça ou pressiona, sentimo-nos mais livres para divagar, pensar, refletir, decidir nossas vidas. O medo do contato, sobre o qual Canetti fundou sua psicologia social das massas, fica suspenso. Quem já experimentou a liberdade, mesmo que ilusória, de estar diariamente acordado enquanto as massas dormem sabe do que estou falando. Pensamos sobre a realidade e sobre as pessoas sabendo que, naquele momento, não nos podem atrapalhar com seus
    ruídos, com sua histeria, com suas opiniões dispensáveis. Sem ter quem nos reprove e livres das patrulhas antitabagistas (aliás, fundadas modernamente por Hitler), fumamos sem pressa e podemos ouvir a brasa do cigarro crestar o papel, fenômeno impossível de ser percebido à luz do dia. Um som fantástico.
    Lemos, em silêncio e circundado por ele, textos que nunca leríamos com o mesmo prazer e compreensão. Quem, como eu, já tentou ler Kant a bordo do Largo da Batata-Perus sabe disso.

    Deixei para o final o relato de uma experiência minha por considerá-la, na verdade, o leitmotiv dessa nova ordem que proponho. As justificativas dadas até agora deram um verniz teórico à minha proposta, um ar mais racional. Com isso, quis mascarar o charlatanismo próprio dos que, como eu, fundam doutrinas baseadas exclusivamente em suas experiências ou imaginação e inventam fórmulas mágicas para justificá-las. Como todos sabemos, quanto mais absurda for a tese mais as pessoas terão de crer nela. Nunca cremos em
    algo perfeitamente possível de ser demonstrado, pois, nesse caso, não há necessidade de crença, certo?

    O fato é que todas as grandes burrices que fiz, fi-las em horário comercial. Cito uma delas, pois, como escreve são João em seu evangelho, todos os livros do mundo não dariam conta de enumerá-las. Talvez ele tenha exagerado ao se referir às incontáveis maravilhas de Cristo. Quanto à minha lista de burrices, porém, não exagero, como se verá a seguir.

    Minha conta no Banco Santos foi aberta em horário comercial, bem como todas as outras contas bancárias que já abri. Também, todos os cartões de crédito que fui convencido a aceitar foram aceitados em horário comercial. Se o gerente me procurasse depois da meia-noite com o argumento de que "com crédito, eu posso desfrutar as coisas boas e melhorar minha qualidade de vida", eu responderia, simplesmente: "Não sei, Almeida, pensando aqui com meus botões, no conforto do meu sofá e acompanhado de Ana Cristina César e de um doze anos. Não acho que esteja convencido de que pagar 350% de juros por ano seja algo saudável, sabe. Faz o seguinte, liga daqui a uns dez anos,
    quando os juros estiverem próximos de zero, pode ser? Não? Você quer se tornar diretor do banco em dez anos? Ótimo, quando for promovido, me dá uma ligada e me paga uma cerveja, melhor assim. Abraços na família, Almeida, até a próxima encarnação"....



    Marcelo Salinas
    Nome do autor: Marcelo Salinas
    Cidade, Estado: São Paulo, SP
    Email para contato: msalinas@folhasp.com.br


    Dezembro Vermelho

    Era o verão quente de dezembro de 1989. Eu morri pouco depois de completar dezoito anos. É, eu era jovem e atraente. Foram duas mortes distintas, ambas minhas mortes.

    Minha mãe tinha ido a um centro de umbanda. A mãe-de-santo previu uma tragédia para aqueles dias, algo de ruim aconteceria comigo. Não deveria sair de casa à noite, mesmo assim sai. Na tarde daquele dia, tinha injetado comprimidos de tarja preta misturados com vodka. Eram injetados na veia da coxa, já que nos meus braços era impossível, devido às inúmeras feridas. Antes de sair, comi algumas bananas. Esse foi o meu último jantar.

    Não era preciso aviso do além para saber que a morte me rondava. Um cara, de apelido Galo, queria me matar. Ele, além de dono de bar, era traficante também. Eu e os amigos traficávamos para ele. Só que o meu temperamento indomável não aceitava ordens. Já tinha planejado botar o meu negócio de tráfico e formar uma quadrilha. Gangue eu já tinha. Foi um erro meu acreditar que o Galo iria concordar, mas também eu não ligava.

    Não me arrependo de nenhum dos meus dias. Naquela noite, deveria acontecer. Tudo estava destinado a acontecer. Antes de chegar ao local, bebi vinho gelado com os amigos. Cheguei no bar completamente bêbado. Pedi cerveja para o galo e ele não quis vender. Xinguei, esbravejei e, num acesso de fúria, virei a mesa de bilhar. Certamente fúria era algo que não faltava em mim. Há casos que eu poderia citar que comprovariam a minha loucura e raiva. De quando rasguei a perna de um homem com um facão porque ele bebeu o meu vinho, ou de quando enforquei, num mato perto de casa, uma cadela que havia me mordido. Era o animal de estimação da minha vizinha. Sai chutando tudo do bar.

    No meio da rua ouvi quando ele me chamou. Começou a me ofender. O sangue ferveu dentro de mim. Puxei o meu facão afiadíssimo e parti para cortá-lo ao meio. Ele ficou por detrás de uma janela gradeada. Era reconhecidamente um covarde. Traficante e covardia não combinavam. Vi, mesmo no escuro, a imagem de um revólver. No entanto, continuei.

    Senti um formigamento no dedo. Era uma bala que havia atingido a minha mão esquerda. Outro estampido. A bala acertou o meu peito. Era calibre 22. Começaria a rasgar as minhas veias e provocar hemorragia interna, eu soube disso depois. Minha raiva era incontrolável. Mesmo mortalmente ferido prossegui. Os amigos, se posso chamá-los de amigos, fugiram. Sozinho na morte, levei o último tiro. Cai inconsciente nos paralelepípedos da rua.

    Pouco tempo depois senti uma mão delicada e fria no meu rosto. Era ela, a minha paixão daqueles últimos dias. Eu a havia conhecido depois de brigar com leões de chácara numa festa. Eram cinco contra mim. Apanhei é claro, mas, se fossem somente três, teria sido diferente. Ela veio me ajudar. Levantou-me e limpou o meu rosto ferido. Não soube o seu nome.

    Da outra vez foi num cemitério. Sabia que ela me seguia. Estava a minha gangue bebendo e se drogando no cemitério, lugar perfeito para isso, então ela chegou. Do nada. Na minha insanidade mandei os amigos a segurarem e deitá-la no túmulo. Tempos depois, fiquei sabendo que, se ela desejasse, teria nos matado sem o menor esforço.

    Eles prenderam os braços; as pernas ficaram soltas me chutando. Abri o zíper da calça e invadi o corpo frágil da menina. Ela se debatia, mas, no rosto, uma ligeira expressão de prazer. Saciado da minha vontade animal, deitei ofegante no chão úmido. Gritei para os outros que a usassem como quisessem. E eles aproveitaram. Não era sempre que andavam com mulheres. Eram feios e cheios de cicatrizes. No lado oposto estava eu, loiro de olhos azuis. Forte e selvagem, vestia-me sempre de preto, camiseta e jaqueta preta, e calça jeans desbotadas. Tudo fruto dos meus roubos.

    Ela veio me socorrer. Estranho socorrer um homem que a estuprou. Vi um carro de portas abertas. Dois homens me jogaram no banco de trás como se eu fosse um boneco. Ela ficava limpando meu rosto suado. Eu delirava. Repetia que não queria morrer, chamava pela mãe. Então, estranhamente, pude notar que havia dentes maiores na boca da menina. Eram as presas que rasgariam o meu pescoço. Senti o meu sangue sendo vorazmente sugado para dentro dela. Não sentia dor. Fiquei dormente. Ela parou, mexeu na bolsa e puxou um punhal. Com ele, cortou o pulso e ordenou que eu bebesse o sangue que escorria. Eu recusei. Ela me obrigou. Esfregou o braço na minha boca. O primeiro gosto de sangue era doce. Bebia com fome e violência, só parei quando desfaleci. Isso mesmo, quando morri.

    Lembro dela, falando palavras incompreensíveis perto do meu ouvido. Eram instruções. Levaram o meu corpo gelado para os médicos. Foi constatado que eu estava clinicamente morto. No necrotério, o médico legista cortou o meu peito, arrancou os meus órgãos. Eu não era mais do que um porco destrinchado. Com uma serra, tirou a parte superior do meu crânio, fez análises do meu cérebro e, depois, costurou tudo. Os meus órgãos foram devidamente postos no lugar, junto com serragem. Eu estava bem ciente do que se passava.

    A minha maior dor não foi física. Foi a dor dos meus pais ao descobrirem que o seu filho caçula tinha morrido tão violentamente e tão jovem. Destruiu a minha alma por inteiro. Minha mãe, quando soube, ficou deitada no chão gritando como louca, rasgando com os dedos a terra úmida. Meu pai ficou imóvel, paralisado. Só lágrimas enchiam o seu rosto. A minha família tinha dez membros. Além dos pais, eu tinha mais sete irmãos. O nosso pai era carpinteiro. Trabalhava no sol quente, construindo casas, enquanto eu roubava. Acho que fui um das maiores decepções dele, ele que era extremamente honesto, não levava um prego embora. A mãe nunca mais foi a mesma. Ela morreu por dentro, não teve mais alegrias. Porém, foi tudo necessário. O eu que eles conheciam não existia mais.

    No caixão simples, ganhado pela prefeitura, estava o meu corpo aparentemente morto. Vieram todos, os amigos. Deixaram uma lembrança: um pouco de cocaína para a despedida. Fiquei incrivelmente diferente. Barba rala amorenada. Olhos azuis como vidro. Uma faixa branca de hospital enrolada na cabeça. Minhas roupas de sempre. Saiam lágrimas dos meus olhos mortos. As pessoas diziam ser efeito da autópsia, mas eram lágrimas verdadeiras. Fui enterrado numa dessas gavetas que não são túmulos, mas são mais baratas. O pedreiro lacrou com cimento a tampa do meu novo lar.

    À noite, uma voz conhecida, a voz da minha salvadora. Ela ordenava que eu levantasse e saísse. Eu era o Lázaro dos anos oitenta. Arrebentei a tranca do caixão pobre e fraco. Tinha uma força sobre-humana. Com os pés tirei a pedra que tapava a gaveta por fora. Arrastando-me sai do esconderijo do meu corpo morto. Sentia uma sede descomunal. Ela me olhou e disse que deveríamos ir caçar. Naquele momento, renasci. Não era mais humano. Só mais uma criatura da noite.

    MARCELO AIRES

    Nome  do autor: Marcelo Gonçalves Aires
    Pseudônimo: Marcelo Aires
    Cidade, Estado: Esteio/RS
    Email para contato: engenharia@nano.ind.br

    O Poeta


    Os poetas são seres estranhos, não são de falar, meio calados...parecem estar sempre a observar cabisbaixos a monotonia dos seres, que entre prazeres, observam da janela o vizinho, que lava o carro, que põe o lixo, que sai cedinho, não fecha o portão...

    O poeta é solidão

    é maresia

    é pescador

    é vaso sem flor...é chão...

    Que poeta louco, não arruma a cama, nem se levanta se houve um grito, ahh o poeta é mito, saudade do mar , lembrança da infância, rua de paralelepípedo...

    Ser poeta é viver, é não envelhecer, é amadurecer diante das desilusões...

    O poeta desvenda o mundo, despe a tristeza, desarma a alma, completa a gente, o poeta mente, mas faz sorrir...

    O poeta é noite, é madrugada, é vento, rua deserta....janela que fecha, choro de criança...

    O poeta é flor, é passarinho, é arvoredo, é rochedo, é mar revolto, lagoa calma, o poeta é alma....fugaz olhar....é sorriso maroto...é bala de côco, o poeta é um anjo que só faz amar....

    Márcia Magalhães

    Nome do autor: Márcia Cristina Lio Magalhães
    Pseudônimo: Márcia Magalhães
    Cidade, Estado:Santo André - SP
    Email para contato: marciamagalhaesbr@yahoo.com.br


    EXT. RUA – NOITE

    EXT. RUA – NOITE

    Los Angeles, 2019. Deckard pára seu coupé em frente a um prédio abandonado. Abre a porta tipo escotilha. A noite é úmida. Ele sai do carro e entra no prédio. À sua frente, vários lances de escada. O lugar é escuro. As únicas luzes vêm de fora, dos postes de luz da rua, passando pelas janelas, e de um enorme zepelim iluminado que sobrevoa o local. Deckard começa a subir as escadas. Tira do coldre sua pistola automática. Caminha por um longo corredor até encontrar uma porta entreaberta. Entra. Por ele, passa um pequeno robô vestido com uniforme militar, marchando até o outro cômodo, esbarrando nas paredes. Deckard segue o robô e entra numa sala repleta de réplicas humanas, manequins e outros robôs. Um deles ri macabramente, com voz metálica. Deckard coloca-se em frente a um robô com forma humana feminina, coberto por um véu. Devagar, começa a tirar o véu de cima do robô. Num único lance, a andróide chuta-o, jogando-o para fora da sala. Enquanto o homem ainda está desnorteado, o robô se joga sobre ele e o golpeia novamente. Ferido, Deckard cai no chão. A andróide toma distância e se prepara para outro golpe. É o tempo de Deckard pegar a arma e atirar. Ele acerta. O robô estrebucha no chão. Deckard atira novamente. Os movimentos cessam.

    CORTA.

    Ridley Scott, em “Blade Runner”, na década de 80, colocou-nos frente a frente com a batalha entre humanos e andróides, absolutamente indistinguíveis uns dos outros, numa guerra sombria travada em uma cidade decadente, regredida a condições sub-humanas praticamente medievais, moldada pelo nosso extraordinário desenvolvimento tecnológico e pelo desejo andróide de subjugar a raça humana. Tudo isso em Los Angeles. E num futuro não tão longínquo assim, em 2019.

    Uma das facetas mais encantadoras do cinema é a permissividade que outorga ao cineasta. Nada é proibido, tudo pode tornar-se real. É como estar por cima de todas as coisas e alcançar, de formas absolutamente precisas, a realidade e a irrealidade, juntas... Em princípio, tudo é possível.

    E essa extrema competência que o cinema tem de criar realidades fictícias acaba por expor, aos nossos olhos, verdades do nosso mundo, das nossas vidas, da nossa própria realidade. E, por isso, nos identificamos tanto com os filmes, com seus personagens, suas buscas, seus anseios, seus dilemas. As realidades fictícias do cinema aguçam a nossa percepção sobre o que se passa à nossa volta. Não acreditamos que, em 2019, Los Angeles seja sobrevoada constantemente por espaçonaves e infestada por andróides assassinos. Mas, a realidade de “Blade Runner” traduz preocupações do nosso tempo, o caos urbano em que vivemos, os constantes problemas raciais que enfrentamos, a nossa expectativa quanto à tecnologia, que avança assustadoramente com o passar dos minutos.

    A tão aclamada “magia do cinema” não está nos efeitos especiais (de “Blade Runner”, inclusive). Não. Não está no vôo de espaçonaves criadas por computador, nos espetáculos pirotécnicos de explosões de bases militares, nas maquiagens de monstros alienígenas, nem mesmo na beleza estonteante de atrizes hollywoodianas. Não é a ficção em si que nos afeta. O encantamento do cinema está no jogo que realidade e ficção estabelecem, em que ambas têm a mesma importância. Essa conversa entre realidade e ficção é que nos prende à tela a ponto de nos fazer comer pipoca compulsivamente. É a realidade que está na ficção que nos cativa. Se, em vez de escritor, no século XVI, William Shakespeare fosse cineasta, nos dias de hoje, talvez escrevesse: “Há muito mais coisas entre um roteiro e uma câmera do que julga a nossa vã cinemafotografia”.

    Marcos Sigrist

    Nome do autor: Marcos Sigrist, cineasta
    Cidade, Estado: São Paulo, SP
    Email para contato: m.sigrist@terra.com.br

    40 massagem 50 programa

    Claro que é ficção.
    O fato é que eu estou com o colar e por mais estranho que pareça, é de açaí, como no texto da Jana.
    Só isso é real. Pois o colar dá pra pegar e lamber e até, numas de body mesmo (apud), comer.
    Mas não vou não. Quero mostrar por aí, meio Caetano, meio fashion week.
    É assim, abri uma categoria de putas e putos e eu mesmo.
    Tenho que fazer justiça, camaradinha.
    Até mesmo ouvindo (se alguém quiser a minha foto com o colar, me escreva, eu mando) “As Time Goes By”, pois o dia foi complexo de obviedades, terminar com uma e dormir.
    Ficção é a puta.
    O resto é açaí em colar.

    - Alô, quem é ?
    - Josê.
    - Atende em casa e local próprio?
    - Amor, só local próprio.
    - Não me chame de amor.
    - Como te chamo?
    - Paulo.
    - Paulo, estou na Sacramento 463, você chega lá embaixo do prédio e me liga.

    Fui.

    Troquei de cueca. Cueca ideograma chinês. Cueca Hai-kai. O taxista disse que eu não tinha a mesma cara da semana passada. Depois aquela outra piranha-orkut diz que nós, os Brutti, somos posers. Pau no cu. Não o meu.

    O taxista tossia pra caralho. E é isso aí, fuma, porra. Bebe, come. Mas é gente boa, metido querer saber da minha vida e as olheiras. Sacramento. Josê.

    - Pára na altura do 400.
    - Mas onde exatamente você vai ?
    - Não sei.
    - Sabe sim. Claro.
    - Não sei, Woody.

    400 : Centro Cultural Enxaqueca. Sério. Tá lá.Vazio. Pra quem quiser ver. Arrepio meio Allan Kardec e eu procurando o prédio exato, urbanidade, essa coisa de “em um apartamento a princesa esperando por mim”, pois sim, ela avisou que ia tomar um banho. Sempre temo pelos fetiches (link com categoria “Perversões” aqui do Brutti, de roupas vermelhas, pretas, sub-roupas de sub-mundo aparentemente sexy, tipo strip, nada mais broxante. Canal é calcinha de algodão. Da Copa do Mundo 2006.) e livros de primeiros passos em pompoarismo, nem de perto.

    - Alô, Josê, tô aqui em baixo.
    - Agora, pro porteiro, você me chama de Bia.
    - Não te chamo de Bia.
    - Tem que chamar.
    - É o nome da minha filha e estou em processo judicial de guarda e a rua está lotada de gente, que merda, Josê. Vão ler isso aqui. Os advogados.
    - Bia só pro porteiro, então.
    - Tá.
    - Primeiro andar. 14. Fácil. A porta com florizinhas coladas.

    Olho mágico no meio das florzinhas azuis vermelhas amarelas, unhadas.

    - Posso chamar de Josê de novo ?

    Moreninha ubatuba cabelo loiro alisabel.
    Paulão vai em frente.

    (Tá foda: a playlist está em “The Summer Knows”)

    Fui.

    Ah, tem nêgo criticando na “Veja”, os escritores de frases curtas e na “EntreLivros” também. Puta negócio sujo e prostituto. Depois noutra conto.

    Televisão no chão, colorida, pegando mal, som alto demais e ela já indo pro quarto sem me deixar ver e reparar nas paredes de ausência sem móveis.

    - Como você gosta, Josê ?
    - Você é o cliente.
    - Eu sei, mas quem sabe você pudesse curtir também, isso me faria feliz, belê ?
    - Massagem 40 Programa 50.
    - Eu sei como é.
    - Sabe nada. Tira tudo. Deita de costas pra mim.
    - Decúbito dorsal ventral e tal?
    - Não tenho estudo. Vou ficar de calcinha. E não sou profissional. Não tenho curso. Preciso fazer.
    - Você é profissional em quê?
    - Em nada.
    - Que porra. Faz algo aí, vai fazendo.

    Massagem com mão besta, mão larva, mão de rezadeira, mão de benção antes de dormir.

    - Vira de frente e vou colocar a camisim.
    - Fala certo. Só isso. Eu te peço. Como cliente. É um troço importante pra mim. “Camisinha”. Ok ?

    Vejo a barriga. Cesárea mal feita.

    - Sempre a história de filhos. Toda puta tem filho e virou puta pra nutrir e essa tragédia toda. Você é uma puta. Bom. Me conforta.
    - Gêmeos.
    - Problema seu. Se fudeu.
    - Vou fazer oral.

    E fez. Boca boba. Boca besta. Boca de benção. Lembrei, vi agora, a calcinha era vermelha de rendinha e minha cueca ideograma tava misturada lá no bolo de sub-roupas, queria separar as coisas, meu lado Roberto Campos, deixei pra lá. Boquete mais vagabundo, sem som. Não estalava a saliva. Nem pedi gemido. Não me chame de amor. Vagabundo demais até ser algo perigoso afetivamente. Meio budista.

    - Você é de onde, Josê?
    - De perto.
    - Perto onde?
    - Perto.
    - Tá achando que tá em algum film noir?
    - Camisim. Camisim. Camisim.
    - Vamos pros 50?

    Coloquei de 4 e meti. Ela escondeu, pelo espelho, o rosto nas mãos. Se chorasse, valeria os 50, com lance de gêmeos e sofrimento na vida, seria show de bola. Mas nem isso. Só no espelho sem rosto.

    - Papai e Mamãe, Josê. Deita.
    - Tá.

    E fui. Paulão. (Playlist : “Dream”). Nada. Saliva sonora zero. Gemido claro que negativo. Sem dor. Sem nada. Ela coçou o olho direito. Tá, já li sobre isso em livros daqueles caras que os jovens cabeludos gostam. Me mantive na guerra dos malditos. Sou mais eu. Ela é pobre, eu sou escritor, porra.

    Estocando e fazendo todos movimentos que deveriam causar impacto. Páthos. Prazer. O 8. O rebola. O devagar-de-repente-rápido. Nada. Sidarta Gautama.

    - Josê, por Deus, existe alguma posição que você goze?
    - Não.
    - Motivo?
    - Não gozo.
    - Nunca?

    E metendo.

    - Tá. Guerra ainda não vencida. Toma esta e mais essa.
    - E você vai demorar muito pra gozar, cara?
    - Me chama de amor.
    - Não. 40 massagem 50 programa 30 minutos.

    Vi o assassino em mim. Já fiz coisa errada. Mas não no centro da cidade. Jogar o corpo pela janela ? Primeiro andar ainda por cima, baixo, sei lá.

    - Certo. Você venceu escrota, plebéia, morta de fome, doente, inculta, lazarenta, não liga, né ? Posso xingar, não liga, é burra, toma fanta uva, é pos-doutortanda em filosofia pela PUC, a tua mãe é uma santa, você acaba de ganhar seus 50 reais, toma, pega, mas tira a camisinha do meu pau, não quero relar minha mão de nobre Saint-Just em sua secreção anti-hiv negativa. (Playlist : “My Heart Will Go On”, deuses dos mares, o que eu fiz de errado ? Que ponta de iceberg é essa?)

    Ela tirou. Impácida Impávida Colosso.

    Eu me vesti. Joguei os 50 sobre a cama, mas nenhum ato meu faria sentido teatral. Ela tinha vencido. Porrada total. Me vesti, eu me vesti tentando ser na boa. Não sentia náusea, ódio, nada. Crime perfeito.

    Vazio. Não, não era a iluminação. Eu não sou Jack Kerouac.

    Rua. Andei até uma mulher amamentando.

    É. O marido montava uma barraca hippie. A mulher disse:

    - Porra, ele cagou de novo.

    O marido ficou quieto, na lida, labuta.

    - Aí parceiro… - eu seco soltei no ar como um pássaro.
    - Diga lá.
    - Tô precisando de uma purificação.
    - Maconha?
    - Mais forte. Tô vindo de um exú brabo. 40 50 30.
    - Josê.
    - É.
    -Eu sabia. Leva. De graça: um colar de açaí. E se souber de mais alguém que tenha passado pela…
    - Eu aviso.
    - Ela sempre muda de lugar. Eu e minha mulher e a yewyyeakahjd sempre estamos atrás dela com nossos colares de açaí.
    - Amarra pra mim.
    - Não tire por 7 anos.
    - Obrigado. Qual seu nome ?
    - kjfhdsakfhkh…
    - Não entendi.
    - É assim mesmo.

    Nos demos as mãos. Ele tinha unhas longas e limpas. Levantei com o colar. (Playlist : “O Melhor do Faroeste de Ennio Morricone” Ufa.)

    Fui beijar a mulher e a criança.

    - Não, ela cagou.
    - A gente se vê.
    - Espero que nunca mais- disse kjwerhklwejhr com olhos de lince xamã.



    Paulo Castro

    Nome do autor: Paulo Castro
    Cidade, Estado: Campinas, SP Website ou Blog: http://www.literaturacorporal.blogspot.com e http://www.editoratabu.com.br Email para contato: pcpsiq@uol.com.br

    Sem Título

    Nome da Obra: (sem título)

    morrer é acordar

    dentro em sonho

    ou dormir sobre

    o ombro pontiagudo

    do pesadelo.



    a fadiga - discreta -

    cochicha à persiana

    o anoitecimento do ofício.



    morfeu escuta e acorda

    - revigorado -

    sem lembrar

    o que sonhou.



    o sono

    configura a censura

    de um mundo gêmeo

    pelo outro.



    o sonho e a realidade

    se unem umbilicalmente

    mas ambos desconhecem

    o que os nutre.


    Ricardo Wagner

    Nome do autor: RICARDO WAGNER ALVES BORGES
    Pseudônimo: SEVLA SEGROB
    Cidade, Estado: ARAXÁ - MG
    Website ou Blog:
    http://prepucio.zip.net/
    Email para contato:
    ricardowagner.b@hotmail.com